ALIVIAR A DOR É OBRA DIVINA! SERÁ SUFICIENTE?

Dr. José Marcondes

Médico pneumologista

Quando comecei a estudar biologia, ainda no segundo grau, desde cedo fui seduzido e encantado pelas maravilhas das estruturas celulares.

A cada organela uma reveladora surpresa, um universo estrelar que eu, viajando à bordo da minha curiosidade, percorria as ilimitadas dimensões de seus desafiadores mistérios.

Entrei pelas paredes lipoproteicas da membrana celular, percorri as centrais energéticas dos mitocôndrias, os serviços de limpeza lisossômicos, as centrais de produção e transporte proteicos dos ribossomos, seus RNA mensageiros, retículos endoplasmáticos, o eficiente complexos de Golgi, até chegar ao centro de comando do núcleo celular, com seus ácidos nucleicos e todo complexo de cadeias espiraladas da vidas, o DNA.

Ao entrar para Faculdade de Medicina, comecei a fazer novas jornadas de descobertas sobre os mistérios das nossas unidades funcionais, estudando-as cada vez mais a fundo, desvendando algumas das suas intrincadas engrenagens, e a importante complexidade dos sistemas biológicos que formam os seres vivo.

Mas a Medicina é uma ciência repleta de segredos e desafios encantadores. A medida em que vamos compreendendo as integrações e interações que envolvem os funcionamentos dos múltiplos sistemas, ansiamos por construir algoritmos diagnósticos e a elaboração das opções terapêuticas.

Aí vem expressão de Hipócrates, pai da Medicina, afirmando sem maiores arrodeios: “sedarem dolorem opus divinum est”. Traduzindo a expressão latina, “aliviar a dor é obra divina”.

A arte médica de buscar acima de tudo, o alívio para a dor, se modificaria radicalmente com a revelação da célula pelo inglês Roberto Hook em 1663.

Já em 1838 Matthias Schleiden e Theodor Schwann propusessem a “Teoria Celular”, assumindo que todos os seres vivos são formados por células, que associadas compõem tecidos e esses, formam os diversos órgãos e sistemas.

Ainda no século XIX, foram descobertos os micróbios, agentes determinantes de doenças de elevada letalidade como a tuberculoses, cólera. O médico alemão Robert Koch inaugura a microbiologia em 1882, descrevendo não apenas a doença, mas também o agente que a causava.

Em 1885, o francês Luis Pasteur, utilizando conhecimento da bacteriologia, cria a vacinação, uma arma poderosa na prevenção da doenças infeciosas.

Mais tarde, em 1923, o médico inglês Alexander Fleming descobre a penicilina e com ela faz uma grande revolução na mortalidade causada por infecções bacteriana.

Se o DNA foi descoberto em 1869 pelo bioquímico alemão Johann Miescher, o detalhamento de sua estrutura e composição só ocorreria 1953 quando os cientistas Francis Crick e James Watson, elegantemente demonstraram a estrutura em hélices mágicas da sua molécula.

Estava iniciada nossa jornada pelo interior das células, lá ocorriam as alterações mecanísticas da saúde e da doenças, intimamente vinculadas aos arranjos ou desarranjos DNA, onde estão localizadas as regiões que codificam os genes controladores do desenvolvimento, do funcionamento e da manutenção das células.

… que texto longo! Mas é assim que ocorrem os fenômenos da vida…

Eis que voltei a estudar as células, agora em novas perspectivas: conceitos de metabolômica introduzido pelo americano Linus Pauling 1993, seguido da genômica, proteômica, transcriptônica e outros nomes tão difíceis quanto atuais.

Manifestações como dor, febre, inflamação, cicatrização e degeneração, dano irreparável da função, cura e morte passaram a ser explicados pelo conhecimento da química funcional no interior celular.

Surgiram os conceitos de ligantes, substâncias químicas capazes de chegarem até a membrana celular, ligar-se a receptores e determinarem ativação de enzimas do bem ou do mal.

Passamos a conhecer a intimidade de vários fatores cancerígenos e seus mecanismos de indução e manutenção das degenerações intracelulares, como os chamados “receptores da proteína G”, as vias de ativação da temida enzima “tirosina-quinase”, dos “sistemas de amplificação da transcrição de genes”, dos fatores que levam as células a loucura metabólica, as vias inclementes da “PI3K” e de outras enzimas que prolongam a vida das células malignas como a “MMP” e, o tão temido “VEGP” garantidor da nutrição das células doentes que nos matam.

Nomes como quimiocinas e citocinas entram no roteiro nos conflitos deflagrados no submundo citoplasmático, alterando toda a lógica de funcionamento das células, produzindo resposta inflamatórias de diversas dimensões.

O conhecimento dos mecanísmos relatados, nos permitem não só entendemos melhor como as doenças se inicializam, evoluem, mas o importante, como podem ser curadas através de “terapias alvos”.

Desde o meu primeiro contato com as células, tive um inexplicável pressentimento que, para o bem ou para o mal, era ali que tudo acontecia.

A brilhante professora de citologia Brigitte Von Agatten me apresentou aqueles tesouros celulares, o professor de bioquímica Antônio Garcia me mostrou que a transferência de simples fostatos do ciclo de Krebs, eram capazes de produzir reações em cadeia de proporções imprevisíveis, tanto vitais quanto fatais.

Depois que aprendi sobre o roteiro da nossa citobiologia, a minha “célula” querida que ilustrava a capa do velho livro de biologia do professor Albino Fonseca, jamais seria a mesma, todo aprendizado inocente fora eclipsado por uma nova realidade, a ciência atropelara minha ingenuidade trazendo a mais crua e verdadeira das realidades: resistimos bravamente à uma guerra oncogênica, degenerativa, inflamatória, praticamente perdidas, movidos tão somente prelo entusiasmo de um dia, na nossa concepção, termos derrotado 240 mil espermatozoides na corrida pela fertilização daquele acolhedor óvulo materno, cheio de vontade de um dia ser algum de nós.

Somo apoptóticos, “temos um tempo para nascer, para viver e outro para morrer”, exatamente como está escrito no Antigo Testamento, em Eclesiates 3, livro da sabedoria.

Dr. José Marcondes é médico e membro da Sobrames Sergipe.

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