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Cadê meu carro?

Sabe aquele momento em que você questiona sua própria sanidade? Pois bem, hoje foi um desses dias. E tudo começou com uma simples ida ao shopping.

Cheguei, como sempre, com aquele espírito otimista de quem acredita que encontrará uma vaga para idoso, de preferência bem próxima ao acesso — embora todas as vagas reservadas aos que lograram alcançar a melhor idade sejam pertinho do acesso, vai que, né? Após rodar umas três voltas no Setor Verde, subindo, descendo, e quase atropelando um carrinho de bebê (com bebê e tudo), achei a vaguinha ideal. Memorizei cuidadosamente: Setor Verde, Letra G, Vaga 324. Ou era 234? Bom, tinha um 3 no meio. Ou não?

O fato é que fiz minhas compras tranquilamente, tomei um cappuccino, obviamente harmonizado com seu par perfeito, um Cointreau gelado e, com a tranquilidade de quem não tem boletos vencidos, me dirigi ao estacionamento.

Foi quando começou o show, ou o drama. Fui direto ao Setor Verde, Letra G, e… nada. Meu carro não estava lá. Na hora, aquele frio na espinha, aquele suor que brota de lugares que você nem sabia que podiam suar. “Roubaram!”, pensei, já puxando o celular para ligar para a minha corretora de seguro, sempre confiável e presente na hora do aperreio. Mas aí veio uma pontada de dúvida: “Será que foi aqui mesmo que eu estacionei?”

Comecei a andar pelo setor inteiro, apertando o botão da chave para ver se algum pisca me dava um sinal de vida. Parecia um maluco tocando um controle remoto invisível no meio do estacionamento.

Foi então que me deparei com uma cena que me deixou ligeiramente mais tranquilo — ou desesperado, dependendo do ponto de vista. Uma senhora, lá pelos seus 80 anos, andava de um lado para o outro, olhando atentamente cada carro, como se eles pudessem, a qualquer momento, responder:

— “Sou eu, dona Fulana, seu Classic prata, ano de 2009, estou aqui atrás desse SUV arrogante.”

A pobre coitada falava sozinha:

— “Mas eu juro que parei aqui… Era do lado de uma coluna… Ou não… Tinha uma árvore… Mas não tem árvore aqui. Ai, meu Deus, levaram meu carro!”

Nossos olhos se cruzaram, e foi aquela troca de olhares que só quem compartilha da mesma dor entende. Uma cumplicidade muda, um aperto de alma coletivo.

Ali percebi que o problema não era só comigo. Era estrutural. Afinal, quem teve a brilhante ideia de fazer todas as vagas absolutamente idênticas, com as mesmas colunas cinza, as mesmas setas no chão e as mesmas letras em placas minúsculas?

Mas confesso que, no meu caso, a situação era um pouco mais grave. Uma maldita sequela psicológica do meu passado. Sim, porque essa minha ansiedade automobilística vem de muito antes. Vem da minha juventude, quando após juntar um dinheirinho dando aulas de inglês, consegui comprar meu primeiro possante: um Dodginho Polara 1800! Usado, é bem verdade, mas com baixa quilometragem e todo guaribado para a época: ar-condicionado, bancos reclináveis e o meu queridinho toca-fitas TKR auto reverso.

Meu irmão mais novo, aquele anjo caído, desenvolveu um hobby peculiar: pegar meu carro emprestado sem minha permissão. E veja, ele não era do tipo estabanado, não. Era meticuloso, quase um agente secreto.

Munido de uma chave extra que mandara copiar da minha original, ele saía com o carro — na surdina, é claro — e, na volta, tinha o cuidado de estacioná-lo exatamente na mesma vaga em que eu o deixara parado enquanto dava as aulas, na mesma posição… ou quase. Às vezes, alguns centímetros pra frente, outras, levemente torto, ou com o retrovisor fechado do lado errado. E eu, ao retornar, olhava pro carro com aquele olhar desconfiado de quem sabe que tem algo errado, mas não consegue provar.

— “Ué… não lembro desse risquinho aqui na porta… Essa sujeira não estava ontem…” E depois, ao perceber o ponteiro do combustível mais baixo, “esse carro tá bebendo mais que o dono…”

Comecei a desenvolver uma espécie de transtorno obsessivo-compulsivo automotivo. Conferia retrovisores, anotava mentalmente o ângulo das rodas, a distância até o meio-fio, tudo! Passei a ter pesadelos recorrentes: sonhava que o carro sumia, que estava estacionado num deserto infinito de vagas iguais, ou que, ao apertar o botão da chave, todos os carros piscavam, menos o meu.

Quase precisei de terapia. Mentira. Precisei, sim. Só não fiz porque a mensalidade da terapia era praticamente o valor do IPVA. Mas voltando ao presente, ali estava eu, rodando, suando, apertando a chave como se ela fosse um amuleto mágico. E nada.

Parei. Respirei fundo. Comecei a racionalizar. “Vamos lá, reviva os passos. Subi pela rampa… vi aquela placa de ‘Saída’… passei por uma loja de pneus… ou foi na volta? Ah, que droga.”

Foi quando ouvi, vindo do outro corredor, aquele delicioso, reconfortante “bip bip”. Me agarrei na esperança como quem vê um oásis no deserto.

Corri. Sim, corri, ignorando todos os resquícios de dignidade. E lá estava ele. Meu carro. Lindo. Reluzente (ok, nem tanto, precisava de uma lavagem, mas naquele momento parecia uma Ferrari zero km).

Sabe onde estava? No Setor Azul. Letra G. Vaga 324.

Azul. Não Verde.

O que me faz pensar: quem foi o gênio da arquitetura que decidiu colocar os Setores Azul e Verde com a mesma letra G? Isso é coisa de psicopata.

Dei uma última olhada para a dona Fulana, que, agora acompanhada por um simpático funcionário do shopping, ainda tentava localizar seu Classic perdido.

Entrei no carro, liguei, e o multimídia automaticamente tocou aquela música que parecia ter sido escolhida a dedo pelo universo: We are the Champions, do Queen. E eu? Me senti um verdadeiro campeão, um sobrevivente, um vitorioso, alguém que venceu o labirinto cruel do estacionamento do shopping.

Na saída, claro, prometi a mim mesmo que, da próxima vez, vou tirar uma foto da placa, da vaga, do piso, da coluna, e, se possível, chamar o Google Maps para fazer um mapeamento em 3D do local.

Mas, sejamos sinceros… Na próxima vez, creio que vou esquecer tudo de novo.

Texto vencedor como Melhor Prosa na XII Jornada Nacional da Sobrames, ocorrida em Belém de 2 a 4 de outubro.

Walter Miranda – é médico integrante da Sobrames Ceará

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