Drª Thais Vieira fala sobre quais tratamentos contra o câncer podem afetar o coração, quem está em maior risco, entre outros assuntos

O avanço no tratamento do câncer salva vidas, mas exige atenção aos efeitos tardios. A Cardio-Oncologia representa um cuidado mais completo, protegendo não apenas contra o câncer, mas também o coração do paciente, durante e após a jornada oncológica. A comunicação aberta com a equipe médica e o controle dos fatores de risco são fundamentais. Confira a entrevista com a médica cardiologista Drª Thais Vieira sobre o assunto!
Saúde em Dia: O que é Cardio-Oncologia e por que ela é importante?
Drª Thais Vieira: É uma área médica nova e vital que une cardiologistas e oncologistas. Seu foco é prevenir, diagnosticar precocemente e tratar problemas cardíacos causados pelos próprios tratamentos do câncer (como quimioterapia, radioterapia e imunoterapia), permitindo que os pacientes completem sua terapia oncológica com mais segurança e tenham melhor qualidade de vida a longo prazo.
Saúde em Dia: Quais tratamentos contra o câncer podem afetar o coração?
Drª Thais Vieira: Vários tratamentos apresentam risco, em graus diferentes. Os principais são:
- Quimioterapias: drogas como Doxorrubicina (Adriamicina), Trastuzumabe (Herceptin), 5-Fluorouracil.
- Radioterapia: especialmente quando aplicada na região do tórax (para câncer de mama, pulmão, linfoma).
- Imunoterapias: alguns inibidores de checkpoint (como Pembrolizumabe, Nivolumabe) podem causar inflamação do coração (miocardite).
- Terapias-alvo: certas drogas (ex.: Sunitinibe, Dasatinibe) podem causar hipertensão ou outros problemas.
Saúde em Dia: Quais são as complicações cardíacas mais comuns?
Drª Thais Vieira: As complicações variam, mas as mais frequentes incluem:
- Disfunção Cardíaca/Insuficiência Cardíaca: o coração perde força para bombear sangue adequadamente.
- Doença Arterial Coronariana: entupimento das artérias do coração, podendo levar a infarto.
- Problemas nas Válvulas Cardíacas: especialmente após radioterapia torácica.
- Arritmias: batimentos cardíacos irregulares (muito rápidos, lentos ou descompassados).
- Miocardite/Pericardite: inflamação do músculo cardíaco ou da membrana que o envolve.
- Hipertensão Arterial: aumento persistente da pressão sanguínea.
Saúde em Dia: A radioterapia no tórax pode causar problemas cardíacos anos depois?
Drª Thais Vieira: Sim. Este é um risco significativo, principalmente para pacientes tratados há décadas, quando as técnicas eram menos precisas. A radiação pode danificar as artérias coronárias (aumentando risco de infarto décadas depois), o músculo cardíaco, as válvulas e o sistema elétrico do coração. Técnicas modernas (radioterapia conformada, IMRT, prótons) reduzem muito, mas não eliminam completamente, esse risco. O acompanhamento cardíaco a longo prazo é crucial.
Saúde em Dia: Quem está em maior risco de sofrer danos cardíacos durante o tratamento?
Drª Thais Vieira: Pacientes com fatores de risco cardiovascular pré-existentes têm risco aumentado: hipertensão, diabetes, colesterol alto, tabagismo, obesidade, sedentarismo, idade avançada. Além disso, o risco é maior com doses cumulativas altas de quimioterapia cardiotóxica, radioterapia torácica prévia ou concomitante, e histórico pessoal ou familiar de doença cardíaca.
Saúde em Dia: Quais sinais e sintomas os pacientes devem observar durante o tratamento?
Drª Thais Vieira: É crucial relatar ao oncologista e/ou cardio-oncologista qualquer um destes sintomas:
- Falta de ar inexplicável (ao fazer esforço ou até em repouso).
- Cansaço excessivo e persistente.
- Inchaço (edema) nas pernas, pés ou tornozelos.
- Palpitações (sensação de batimentos acelerados ou irregulares).
- Dor ou desconforto no peito.
- Tonturas ou desmaios.
- Aumento repentino de peso (pode indicar retenção de líquidos por insuficiência cardíaca).
Saúde em Dia: Como essas complicações podem ser prevenidas ou detectadas cedo?
Drª Thais Vieira: A prevenção e detecção precoce são pilares da cardio-oncologia:
- Avaliação Pré-Tratamento: check-up cardíaco completo antes de iniciar terapias de risco.
- Controle de Fatores de Risco: rigoroso controle de pressão, diabetes, colesterol; cessar tabagismo.
- Monitorização Durante o Tratamento: ecocardiogramas periódicos para avaliar a função do coração (Fração de Ejeção), exames de sangue (troponina, BNP), ECG.
- Modificação de Dose/Tratamento: ajustar a dose ou escolher drogas alternativas quando possível.
- Uso de Cardioprotetores: medicamentos como o Dexrazoxano (para algumas quimioterapias) ou betabloqueadores/inibidores de ECA podem ser usados preventivamente em casos selecionados.
Saúde em Dia: Se um problema cardíaco surgir, o tratamento oncológico precisa ser interrompido?
Drª Thais Vieira: Nem sempre. A decisão é complexa e individualizada, feita em conjunto pelo oncologista e cardio-oncologista. O objetivo é equilibrar a eficácia do tratamento contra o câncer e a proteção do coração. Estratégias podem incluir: ajuste da dose da quimio, troca para uma droga menos cardiotóxica, introdução ou intensificação de medicações para o coração, ou uma breve pausa para estabilização cardíaca antes de retomar. A interrupção definitiva é considerada apenas em casos graves.
Saúde em Dia: O que os pacientes sobreviventes ao câncer podem fazer para proteger seu coração a longo prazo?
Drª Thais Vieira: Sobreviventes, especialmente aqueles que receberam tratamentos com risco cardíaco, devem:
- Manter acompanhamento cardíaco regular, mesmo anos após o fim do tratamento oncológico.
- Adotar um estilo de vida saudável para o coração: dieta equilibrada (rica em frutas, verduras, grãos integrais), exercício físico regular (sob orientação), controle rigoroso do peso, pressão arterial, colesterol e diabetes.
- Evitar absolutamente o tabagismo.
- Informar todos os profissionais de saúde sobre seu histórico oncológico e tratamentos recebidos.
Saúde em Dia: A Cardio-Oncologia está disponível no SUS?
Drª Thais Vieira: A especialidade ainda está em expansão no Brasil, principalmente no SUS. Centros oncológicos de referência e grandes hospitais universitários são os mais propensos a contar com essa abordagem integrada ou ter parcerias estabelecidas. O acesso pode ser mais limitado em cidades menores. Pacientes devem perguntar ao seu oncologista sobre a possibilidade de avaliação cardiológica especializada durante o tratamento, especialmente se receberem terapias de alto risco ou apresentarem sintomas. A conscientização sobre a necessidade desse cuidado está crescendo.

