
Apesar de afetar milhões de mulheres e impactar diretamente a qualidade de vida, a endometriose ainda é cercada por dúvidas e desinformação. Sintomas muitas vezes naturalizados, como cólicas intensas e dor durante a relação sexual, podem esconder uma doença silenciosa que exige diagnóstico precoce e acompanhamento especializado. Em Aracaju, o tema ganhou destaque dentro da campanha Março Amarelo, com um grande evento realizado no Shopping RioMar Aracaju, que reuniu público, pacientes e especialistas

em um dia dedicado à conscientização. A iniciativa foi liderada pelo ginecologista Kelso Passos, autoridade no assunto no estado, reforçando a importância de dar visibilidade à doença e ampliar o acesso à informação. Nesta entrevista, ele explica os principais sintomas, formas de diagnóstico e os avanços no tratamento da endometriose.
Saúde em dia: Cólicas muito fortes são normais ou podem ser sinal de endometriose?
Kelso Passos: Cólicas incapacitantes, que impedem a mulher de trabalhar, estudar ou manter sua rotina, nunca são normais. Dor intensa e progressiva é um sinal de alerta importante para investigação de endometriose.
Quando a dor menstrual deixa de ser comum e passa a ser preocupante? Como citado anteriormente, a cólica incapacitante, progressiva (piora ao longo dos anos), podendo vir acompanhada de desmaios, náuseas, que limitam a qualidade de vida, sempre precisaremos investigar. A dor que paralisa não deve ser naturalizada.
Dor durante a relação sexual pode estar relacionada à endometriose? Sim. A dor profunda durante a relação é um dos sintomas clássicos, podendo evoluir até para dor superficial. Muitas mulheres silenciam esse sintoma por constrangimento, o que acaba atrasando o diagnóstico.
Alterações intestinais ou dor para evacuar no período menstrual também podem ser sintomas? Sim. Quando a mulher apresentar durante o período menstrual dor ao evacuar, distensão abdominal, alteração do hábito intestinal; podendo inclusive ser um sintoma constante e piorar no período menstrual. Esse é um sinal importante que muitas vezes passa despercebido.
A endometriose pode causar dificuldade para engravidar? Sim, apesar de nem sempre ser um sintoma inicial, a doença está associada a alterações inflamatórias e anatômicas que podem comprometer a fertilidade. Estima-se que uma parcela significativa das mulheres com infertilidade tenha endometriose como causa ou fator associado. Por isso, a investigação precoce é fundamental para diagnosticar a infertilidade ou até mesmo evitá-la.
Por que tantas mulheres levam anos para descobrir que têm a doença? Infelizmente, ainda existe uma cultura de normalização da dor feminina. Muitas pacientes escutam desde a adolescência que “cólica é normal”. Além disso, a doença pode se manifestar de formas variadas e em diferentes estágios da vida, o que exige um olhar especializado para suspeitar e investigar corretamente.
Quais exames hoje ajudam a fechar o diagnóstico com mais precisão? Hoje contamos com ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal e protocolo específico para mapeamento de endometriose, além da ressonância magnética com protocolo direcionado. Esses exames, quando realizados por profissionais capacitados, permitem diagnóstico mais preciso e planejamento terapêutico adequado. Porém é importante salientar que qualquer ultrassom transvaginal sem preparo ou ressonância sem preparo ou contraste é capaz de identificar a doença, desde que o profissional seja capacitado para isso. Os exames com preparo são para mapear com precisão a doença.
Endometriose tem cura ou é uma doença que precisa de controle contínuo? A endometriose é uma doença crônica. Não falamos em cura definitiva, mas em controle eficaz. Com tratamento individualizado, é possível reduzir dor, preservar fertilidade e devolver qualidade de vida à paciente.
Quando a cirurgia é indicada e quais são os avanços atuais no tratamento? A cirurgia é indicada principalmente nos casos de dor refratária ao tratamento clínico, comprometimento de órgãos considerados “nobres” ou infertilidade associada. Atualmente, utilizamos técnicas minimamente invasivas, como a videolaparoscopia tradicional ou assistida por robótica, ambas com resultados semelhantes quando realizada por cirurgiões experientes, fato publicado em diversas revistas especializadas.
Qual a importância do diagnóstico precoce e do acompanhamento com equipe multidisciplinar? A endometriose não é apenas uma doença ginecológica, ela impacta o emocional, a fertilidade e a qualidade de vida como um todo, podendo acometer órgãos pélvicos e extra-pélvicos. O acompanhamento multidisciplinar, com ginecologista especializado, nutricionista, fisioterapeuta pélvica, profissional de educação física e psicólogo oferece resultados muito superiores. Diagnóstico precoce significa menos sofrimento e mais qualidade de vida.
Estudos recentes apontam que a endometriose pode estar associada a traumas na infância. Existe mesmo essa relação? Algumas pesquisas recentes têm observado uma associação entre experiências adversas na infância, como situações de violência, negligência ou estresse crônico, e maior risco de desenvolvimento de doenças inflamatórias na vida adulta, incluindo a endometriose.
É importante deixar claro que isso não significa que o trauma cause diretamente a doença, mas pode ser um gatilho importante para o início dos sintomas da mesma. A endometriose é multifatorial, envolve genética e epigenética, microbioma intestinal, fatores hormonais e imunológicos. O que a ciência tem investigado é como o estresse precoce pode impactar o sistema imunológico, microbioma intestinal e os mecanismos inflamatórios ao longo da vida. Esse entendimento amplia nossa visão sobre a doença e reforça a importância de um cuidado integral, que considere todos os aspectos da vida da paciente.

