
Há mentiras que, mais do que ocultar a verdade, a revelam em sua mais pura e desarmada essência. Aquela proferida em tom suave, com um sorriso quase imperceptível, por quem se doa sem medir, é uma delas. “Pode comer, meu filho, a mãe está sem fome” – não é uma simples falsidade, mas um paradoxo existencial, um teorema do amor incondicional que a retórica da vida ensina sem palavras, apenas com gestos.
Esta frase, ecoando em incontáveis lares através dos tempos, transcende a mera necessidade biológica de sustento. Ela se ergue como um monumento à abnegação, uma torre erguida sobre a fundação de incontáveis atos de renúncia. O estômago talvez gritasse, o corpo talvez clamasse por energia, mas a voz

proferia uma outra verdade: a da prioridade alheia, a da satisfação encontrada na plenitude do outro. Nela, a fome do espírito em nutrir superava a fome da carne em ser nutrida.
É uma lição sobre a complexidade da doação. O ser que a pronuncia compreende, intuitivamente, que a saciedade de quem recebe é, por si só, uma forma de alimento. É a inversão de uma lógica básica: a de que o “eu” vem antes do “outro”. Aqui, o “outro” é o “eu”, e a plenitude do “outro” é a própria plenitude. Esta não é uma mentira que engana, mas uma que protege; não uma que ludibria, mas uma que edifica. Ela constrói pontes invisíveis de afeto e responsabilidade mútua, mesmo que o receptor, em sua ingenuidade inicial, não perceba a profundidade do sacrifício velado.
Com o amadurecimento, a verdade por trás daquela “mentira” se desvela. Não é o ato de não ter fome que se recorda, mas o ato de amar tanto a ponto de negar uma necessidade primária por um bem maior. É quando o destinatário daquela frase compreende que a fome que existia não era de alimento, mas de assegurar o bem-estar do outro, de ver o brilho nos olhos, a energia renovada. Essa revelação transforma a mentira em uma das mais profundas verdades já absorvidas, uma que molda a capacidade de se doar, de se sacrificar silenciosamente, de se tornar, por sua vez, o portador da mesma “mentira benevolente”.
E quanto à mãe de hoje? Aquela figura que navega por um mundo de novas complexidades, onde as lutas por recursos talvez sejam menos pela comida e mais pelo tempo, pela atenção, pela paz mental. Será que ela ainda pronunciaria a mesma “mentira” em relação à alimentação? A literalidade da fome física, para muitos, diminuiu, um reflexo do avanço civilizatório e das mudanças socioeconômicas. No entanto, a essência do sacrifício e da doação persiste, adaptando-se às nuances do presente e às novas formas de “fome” que surgem.
A mãe contemporânea, embora talvez não precise mais negar o alimento físico, confronta “fomes” de outra natureza. A “mentira” não é mais sobre o prato de comida, mas sobre a própria existência em um mundo acelerado. Ela pode se manifestar como “Pode brincar mais um pouco, meu filho, a mãe não está cansada”, quando o corpo e a mente anseiam por um instante de silêncio e repouso. Ou “Assista seu programa favorito, a mãe não tem nada importante para fazer agora”, enquanto a lista de tarefas e desejos pessoais se estende, sufocada pela demanda incessante de nutrir não o corpo, mas a alma, a mente e o futuro do filho.
A pergunta crucial, portanto, não é se a mãe de hoje ainda passaria fome literal para alimentar seu filho – para a maioria, essa cena de privação extrema já não se impõe –, mas sim se o espírito de abnegação, o impulso intrínseco de colocar o bem-estar da prole acima do próprio, permanece incólume. A resposta, em sua profunda e comovente verdade, é sim. O sacrifício mudou de roupagem, de uma privação material para uma renúncia de tempo, de espaço pessoal, de ambições individuais, de energia emocional. As “fomes” que se negam hoje são a fome de descanso, a fome de liberdade, a fome de um tempo só para si. O campo de batalha não é mais a mesa vazia, mas a agenda lotada, o sono interrompido, os desejos adiados.
A forma da “mentira” se adapta, os contornos do sacrifício se modernizam, mas o cerne do amor incondicional, aquele que se traduz em renúncia silenciosa, continua a ser a bússola que guia inúmeras existências. É um testemunho da atemporalidade do instinto de cuidado, que encontra novas maneiras de se expressar em cada era, revelando a constante reinvenção do altruísmo.
A essência desta frase ressoa para além dos laços familiares, ecoando em diversas formas de cuidado e interdependência que tecem o tecido social. Quantas vezes, em contextos variados, não nos deparamos com aqueles que, metaforicamente, “não têm fome” para que outros possam se banquetear? Seja na dedicação profissional, na solidariedade comunitária, ou nos gestos cotidianos de gentileza, a renúncia de uma necessidade pessoal em prol da coletividade ou de um indivíduo é um pilar da coexistência.
É, portanto, uma mentira que educa sobre a generosidade e a compaixão. Ela ensina que a verdade nem sempre reside na literalidade dos fatos, mas na intenção que os move. Que o silêncio de uma necessidade pode ser mais eloquente do que a mais articulada das demandas. E que a maior das verdades sobre o amor reside, muitas vezes, na mais terna das “mentiras”, uma que se repete em ciclos infinitos de doação, perpetuando o legado de uma humanidade que encontra sua completude na intersecção de suas carências e na plenitude compartilhada, independente da época. É o paradoxo da alma: só se encontra o que se dá, e só se alimenta verdadeiramente o que se oferece sem reserva.
Dr. Aderval Aragão – é médico e cirurgião vascular

