Era uma tarde de domingo quando ele se viu parado diante do espelho do quarto, os olhos fixos na própria imagem refletida. Não era vaidade que o mantinha ali, mas uma profunda introspecção que há dias o consumia. As palavras de sua avó ecoavam em sua mente: “Olhe-se no espelho. Veja tudo o que você conquistou.”
Ele suspirou, seus olhos percorrendo cada detalhe do seu rosto. As pequenas rugas que começavam a se formar eram testemunhas silenciosas das noites em claro estudando. O cabelo, antes sempre impecavelmente arrumado, agora estava despenteado – reflexo das longas horas dedicadas ao trabalho.

Seu olhar vagou pelo quarto, pousando sobre a estante repleta de livros. Cada volume ali representava uma batalha vencida, um obstáculo superado. Lembrou-se das inúmeras vezes em que duvidou de sua capacidade de chegar até ali, de se formar em uma universidade pública.
Um sorriso tímido brotou em seus lábios ao recordar o dia da formatura. A sensação do diploma em suas mãos, o peso da toga, o orgulho nos olhos de seus pais. Tudo isso ele conquistou com seu próprio esforço, com a determinação que por vezes parecia fraquejar, mas nunca se extinguia completamente.
Contudo, nos últimos meses, viu-se cercado por vozes que pareciam querer ofuscar suas conquistas. Colegas de trabalho que menosprezavam suas ideias, um chefe que parecia incapaz de reconhecer seu potencial. Lentamente, essas vozes foram se infiltrando em sua mente, plantando sementes de dúvida e insegurança.
Afastou-se do espelho, caminhando até a janela. Lá fora, o mundo seguia seu curso, alheio às suas inquietações. Pessoas passavam apressadas pela calçada, cada uma carregando suas próprias batalhas invisíveis. Quantas delas, assim como ele, estariam questionando seu valor naquele exato momento?
Fechou os olhos, respirando fundo. As palavras de sua avó voltaram a ecoar em sua mente, desta vez com mais força: “Nunca se deixe humilhar. O simples fato de você tentar quebrar todos os paradigmas e seguir em frente com determinação todos os dias, já é uma grande vitória.”
Abriu os olhos, encarando seu reflexo no vidro da janela. Ali estava ele, um homem que enfrentou desafios, superou obstáculos e continuava de pé, apesar das adversidades. Cada passo dado, cada noite mal dormida, cada lágrima derramada o trouxe até aqui. E aqui ele permaneceria, firme em seu propósito.
Naquele momento, tomou uma decisão. Não mais permitiria que as vozes ao seu redor ditassem seu valor. Ele era o autor de sua própria história, o escultor de seu próprio destino. O medo do desconhecido, que por tanto tempo o paralisou, agora seria o combustível para sua jornada.
Com passos decididos, caminhou até sua escrivaninha e pegou um pedaço de papel. Com letra firme, escreveu: “Saia, perca o medo do que está por vir, tente. Nada foi escrito sobre covardes.” Colou o bilhete no espelho, um lembrete diário de sua força e determinação.
O sol começava a se pôr quando finalmente se afastou da janela. O quarto, antes palco de suas dúvidas, agora parecia vibrar com uma nova energia. Ele sabia que os desafios continuariam a surgir, que as vozes negativas não desapareceriam magicamente. Mas agora, armado com a consciência de seu próprio valor, estava pronto para enfrentá-los.
Enquanto se preparava para mais uma semana de trabalho, sorriu para seu reflexo no espelho. Ali estava um homem forte, resiliente, capaz de mover montanhas com sua determinação. E esse homem estava pronto para conquistar o mundo, um passo de cada vez.
A noite caiu sobre a cidade, envolvendo-a em um manto de estrelas. E em um pequeno apartamento, um jovem homem adormeceu com um sorriso nos lábios, sonhando com as infinitas possibilidades que o amanhã traria. Porque ele sabia, no fundo de seu coração, que sua história estava longe de terminar. Na verdade, o capítulo mais emocionante estava apenas começando.
Dr. Aderval Aragão – é médico e cirurgião vascular

