GERALDO LEITE – 100 ANOS

Lúcio Prado Dias
Médico clínico geral

Com o decisivo apoio da Sociedade Médica de Sergipe, que dirigíamos à época, a Academia Sergipana de Medicina tornou-se realidade em 9 de dezembro de 1994, em sessão solene realizada no auditório da SOMESE e que teve a coordenação geral do médico Gileno Lima, o nosso principal articulador para que a Academia de Sergipe se tornasse uma realidade.

Por conta do seu entusiasmo e determinação, os seus pares, integrantes da confraria, tornaram-lhe Presidente de Honra e a entidade é hoje conhecida carinhosamente como a Casa de Gileno.

Como se não bastasse, a maior honraria concedida pela Academia anualmente a personalidades da nossa história recebe a denominação de Comenda Dr. Gileno Lima.

Aquele foi um dia de brilho intenso, uma noite radiante, esplendorosa, quando foram empossados coletivamente os vinte e seis médicos fundadores, nas respectivas cadeiras.

Nessa sessão solene de fundação, fizeram-se presentes, além de autoridades, médicos e convidados, ilustres membros da Academia de Medicina da Bahia, como Geraldo Milton da Silveira, que à época presidia a entidade, Thomaz Cruz, Maria Tereza Pacheco, Alberto Serravale e José Queiróz.

Uma ilustre delegação baiana, que abrilhantou sobremodo o nosso evento.

Mas, apesar de todo o brilho, faltou uma pessoa naquela destacada delegação.

Houve um dia em que as duas faculdades de Medicina existentes em Salvador eram dirigidas por sergipanos: a vetusta faculdade do Terreiro de Jesus, primaz do Brasil, integrante da Universidade Federal da Bahia, que era dirigida por Thomaz Cruz, e a Escola Baiana de Medicina, da Universidade Católica, sob o comando geral de Geraldo Leite.

Daí partiu deles, aracajuanos saudosos, de incentivar e propor à congênere baiana, à época comandada pelo Dr. Geraldo Milton da Silveira, liderar um movimento pela criação da coirmã sergipana.

Gileno Lima, primo de Geraldo, seria o grande catalisador para que as providências fossem levadas a efeito e ele o fez com muita competência.

Anos se passaram e todos nós da Academia Sergipana de Medicina desconhecíamos a proeza conjunta desses vultos sergipanos e ícones da Medicina baiana e brasileira.

Anos atrás, participando de um evento no Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, tive o prazer de ser apresentado ao Dr. Geraldo Leite, um dos organizadores do evento e desde então brotou em mim uma admiração inexplicável por este notável vate que se destaca de forma gigante no panteão dos heróis brasileiros.

Juntos, trocamos ideias e plantamos sonhos.

Após diversas reuniões preparatórias, com a presença de representantes dos dois estados, nasceu o Encontro Médico Literário dos Estados da Bahia e de Sergipe, que aconteceu em duas edições, a primeira na Bahia e a segunda, em Sergipe.

Mas por que Geraldo Leite não estava conosco na radiante noite de 9 de dezembro de 1994?

Passei a conviver com Geraldo Leite mais de perto e comecei a descobrir a magnitude de sua personalidade, suas notáveis realizações, o seu compromisso com a Medicina, conhecer a sua liderança e determinação, o ritmo incansável de trabalho e, finalmente, perceber o quanto era admirado pelos baianos.

E por que Sergipe não havia incluído esse nome no Panteão dos Heróis de Curar?

Por que esse esquecimento?

Por que essa injustiça?

Faltava uma peça no tabuleiro do xadrez.

No período negro da pandemia do Covid, em sessão virtual da Academia Sergipana de Medicina, por nossa propositura, foi aprovada a outorga a Geraldo Leite do Título de Sócio Emérito da nossa Academia, como reconhecimento ao conjunto de sua obra.

A duração da pandemia foi impossibilitando a entrega do diploma oficial.

Isso só veio a ocorrer em 4 de dezembro de 2023, quando as Academias Sergipanas de Medicina e de Letras realizaram, na sede desta última, uma histórica sessão conjunta para promover a entrega do diploma de Sócio Emérito da ASM a Geraldo Leite.

A sessão corria garbosamente e Geraldo, após receber a honraria de forma protocolar, no seu discurso de agradecimento, proferiu uma simbólica e significativa manifestação, que a todos no plenário, e a mim em particular, deixou-nos extasiados.

Ele e Thomaz Cruz, há quase 30 anos, viram ser instalada, em 9 de dezembro de 1994, a Academia Sergipana de Medicina.

Todavia, por algum capricho do destino, um dos seus idealizadores, Geraldo Leite, não pôde estar presente na solenidade de instalação, o que, de certa forma, o deixou muito triste.

Não obstante, jamais reclamou e nem deixou transparecer descontentamento, apenas calou, orou e esperou, como afirmado em sua lapidar peça oratória.

Disse ele:

“Tenho a certeza de que o homem se comunica com Deus por meio da oração e Deus responde. Deus responde com inspiração, é a inspiração Divina, e eu orei, lamentando a minha ausência naquele momento tão importante para minha terra e para mim, como sergipano — oh, meu Deus, eu tinha tanta vontade de estar presente! E Deus respondeu.”

E continuou:

“Deus tocou em Lúcio! Meu querido Lúcio! Deus tocou em seu coração e aqui estou por obra e graça Divina, recebendo um título que tanto sonhei.”

Após três décadas de uma silenciosa e angustiante espera, emocionado, estava ali, na minha frente, Geraldo Leite recebendo o galardão tão sonhado, representado pela insígnia de Membro Emérito da Academia Sergipana de Medicina.

E agradecendo, de forma digna e elegante, com uma declaração que repercutiu em meu coração, naquele momento, não na dimensão que deveria ter ocorrido.

Não sei o porquê, acho que não estava ouvindo direito, surpreendi-me com as palmas dos confrades que estavam no auditório.

Meu Deus, aquela citação teria sido mesmo para mim?

Mas o que fiz, se não apenas reparar um erro histórico?

Alertado por Pascoal, as palavras foram voltando à minha mente…

“Houve um dia, na Bahia, que existiam duas faculdades de Medicina: uma no Terreiro de Jesus e outra no bairro de Nazaré, ambas dirigidas por sergipanos. No Terreiro de Jesus, por Thomaz Cruz, de saudosa memória. No bairro de Nazaré, por Geraldo Leite, que aqui está.

Um dia, os dois diretores, conversando amavelmente, como sempre, na Academia de Medicina da Bahia, da qual ambos éramos membros, progredimos numa ideia de criar, no nosso torrão natal, uma Academia de Medicina.

Levamos à presidência da congênere baiana o nosso pleito, a ideia prosperou e o sonho se tornou realidade, mas, por um capricho do destino, não pude participar.

Tenho certeza de que o homem se comunica com Deus, por meio da oração, e Deus responde. Deus responde com a inspiração, é a inspiração Divina. Eu orei, lamentando a minha ausência — oh, meu Deus, eu tinha tanta vontade de estar presente! E Deus respondeu.”

Agora eu tinha certeza, todos estavam olhando para mim!

Era eu mesmo!

Que nenhuma glória caia sobre mim, apenas a de ter sido, por força do conhecimento e da amizade criada com fraternidade, um instrumento de Deus para que a Academia Sergipana de Medicina se reconciliasse com a sua história!

Dr. Geraldo Leite, prometo que guardarei comigo esse momento prazeroso, como uma manifestação de Deus.

E ele deu-me essa compensação, e que compensação!

O 4 de dezembro sempre estará comigo, como estará doravante o 23 de abril, data que celebra o seu Centenário de Nascimento, com toda a honra e toda a glória, vigor e lucidez, uma clarinada de luz a iluminar os nossos caminhos.

Assista ao depoimento completo de Geraldo Leite clicando aqui.

Lúcio Prado Dias – é membro da Academia Sergipana de Medicina e Presidente nacional da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores.

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