“Estudo revela que um em cada 13 jovens adultos já apresenta sinais de aterosclerose silenciosa.”
Há doenças que chegam fazendo barulho. Outras avançam silenciosamente, sem provocar dor, desconforto ou qualquer sinal de alerta. A aterosclerose pertence a esse segundo grupo. Durante anos, ou mesmo décadas, pode comprometer nossas artérias sem que percebamos sua presença. Quando finalmente se manifesta, não raramente o faz de maneira dramática, sob a forma de um infarto agudo do miocárdio (IAM) ou de um acidente vascular cerebral (AVC). Costumamos associar essas enfermidades ao envelhecimento, como se fossem consequências quase inevitáveis da passagem dos anos. Entretanto, a ciência vem demonstrando que a história é bem diferente: o infarto pode acontecer aos 60 anos, mas a doença que o provocou talvez tenha começado aos 20.
Essa realidade ganhou contornos ainda mais expressivos com a recente publicação do estudo REACT (Prevalence of Silent Atherosclerosis across Adult Life), no prestigiado periódico The New England Journal of Medicine, em agosto de 2026. Conduzida por pesquisadores da Dinamarca e da Espanha, a investigação oferece uma importante contribuição para compreendermos quando e como a aterosclerose se instala ao longo da vida. Antes de examinarmos seus resultados, convém recordar que a aterosclerose é uma doença caracterizada pela formação de placas na parede das artérias, constituídas por lipídios, células inflamatórias e tecido fibroso, entre outros componentes. Sua evolução pode comprometer a circulação sanguínea e, quando ocorre a ruptura ou erosão de determinadas placas, favorecer a formação de trombos capazes de desencadear eventos cardiovasculares graves (IAM ou AVC). O aspecto mais inquietante é que esse processo pode permanecer completamente silencioso.
O estudo REACT avaliou 16.808 adultos, entre 18 e 70 anos, sem doença cardiovascular aterosclerótica previamente conhecida. Utilizando ultrassonografia tridimensional das artérias carótidas e femorais, além de angiotomografia das coronárias, os pesquisadores investigaram a presença de placas ateroscleróticas em diferentes territórios vasculares. Os resultados impressionam: 57,1% dos participantes apresentavam aterosclerose silenciosa. Em outras palavras, mais da metade daquela população já possuía sinais da doença, embora não tivesse diagnóstico clínico prévio.
Mas talvez o achado mais surpreendente esteja entre os mais jovens. Na faixa etária de 18 a 29 anos, a aterosclerose já estava presente em 8,7% dos homens e 6,7% das mulheres. Considerando ambos os sexos, isso corresponde, aproximadamente, a um em cada 13 jovens adultos. Vale refletir sobre o significado desses números. Estamos falando de pessoas em plena juventude, muitas delas iniciando a vida profissional, constituindo família e fazendo planos para o futuro. Nessa fase, dificilmente alguém imagina que suas artérias já possam carregar as primeiras marcas de uma doença potencialmente grave.
O REACT também demonstrou que a frequência da aterosclerose aumenta progressivamente com a idade, alcançando aproximadamente nove em cada dez indivíduos entre 60 e 70 anos. Nos homens, a doença tende a aparecer mais precocemente. Nas mulheres, observa-se uma elevação mais acentuada durante a meia-idade, período que coincide, em grande parte, com a transição menopausal. Vale ressaltar que a aterosclerose não é apenas uma doença das coronárias, mas um processo sistêmico, progressivo e frequentemente silencioso.
Os achados do estudo REACT fortalecem uma mensagem que merece ultrapassar os limites dos congressos e das publicações científicas: a prevenção cardiovascular não deve começar quando surgem os sintomas, nem ficar reservada à terceira idade.
Desde cedo, precisamos estimular hábitos capazes de proteger nossas artérias: alimentação saudável, atividade física regular, abandono do tabagismo, controle da pressão arterial, do colesterol e da glicemia, além da manutenção de um peso adequado. São atitudes aparentemente simples, mas com enorme potencial de modificar a trajetória da saúde cardiovascular.
O desafio não é apenas individual. Precisamos de políticas públicas que valorizem a prevenção desde a infância e a juventude, especialmente na atenção primária, tornando a promoção da saúde acessível a toda a população.
O REACT nos convida, portanto, a uma mudança de perspectiva. Durante muito tempo, concentramos esforços em tratar as consequências da aterosclerose. Agora, torna-se cada vez mais evidente a necessidade de reconhecer e enfrentar suas origens, muito antes das manifestações clínicas.
Afinal, o coração pode anunciar a doença somente na maturidade, mas as artérias talvez estejam contando essa história desde a juventude. E, quando se trata de prevenção cardiovascular, compreender essa história a tempo pode fazer toda a diferença.
Prof. Dr. Antônio Sobral Sousa – professor Titular da UFS, Membro das Academias Sergipanas de Medicina, de Letras e de Educação

