Em um mundo onde o equilíbrio é frequentemente pregado como a chave para uma vida plena, deparamo-nos com uma afirmação intrigante do amigo Carlos Pinna: “Todo excesso é condenável, menos a GRATIDÃO”. Esta frase, aparentemente simples, carrega consigo um universo de reflexões sobre como conduzimos nossas vidas e percebemos o mundo ao nosso redor.
Desde pequenos, somos ensinados que o excesso, em qualquer forma, é prejudicial. Excesso de comida leva à obesidade; excesso de trabalho, ao esgotamento; excesso de diversão, à irresponsabilidade. A moderação é exaltada como virtude, e com razão. O equilíbrio nos mantém saudáveis, produtivos e centrados.
No entanto, eis que surge uma exceção à regra: a gratidão. Por que seria a gratidão isenta dessa condenação universal ao excesso? Talvez porque, diferentemente de outros aspectos da vida, a gratidão não consome recursos finitos, não desgasta o corpo nem a mente. Pelo contrário, ela nutre o espírito e expande nossa capacidade de apreciar a vida em suas mais variadas nuances.

Imagine uma xícara transbordando de café. O líquido escorre, mancha a mesa, desperdiça-se. Agora, imagine um coração transbordando de gratidão. O que acontece? Não há desperdício, não há mancha. A gratidão excessiva se espalha, toca outras vidas, multiplica-se.
Há quem diga que ser excessivamente grato pode nos tornar complacentes, satisfeitos demais com o que temos para buscar melhorias. Mas essa visão falha em compreender a verdadeira natureza da gratidão. Ser grato não significa aceitar passivamente as circunstâncias, mas reconhecer o valor do que já possuímos enquanto trabalhamos por mais.
A gratidão excessiva é como um par de óculos mágicos que nos permite enxergar beleza onde antes víamos apenas o comum. O nascer do sol deixa de ser apenas o início de mais um dia de trabalho e se torna um espetáculo diário de cores e promessas. O abraço de um ente querido não é mais um gesto rotineiro, mas um tesouro de afeto e conexão.
Em tempos de crises e incertezas, cultivar um excesso de gratidão pode ser a diferença entre sucumbir ao desespero e encontrar força para seguir em frente. Quando somos excessivamente gratos, criamos um reservatório de positividade do qual podemos beber nos momentos de seca emocional.
Além disso, a gratidão excessiva tem o poder de transformar não apenas o indivíduo, mas toda uma comunidade. Imagine um mundo onde cada pessoa fosse excessivamente grata. As interações sociais seriam mais gentis, o cuidado com o meio ambiente seria natural, a empatia floresceria sem esforço. O excesso de gratidão cria um ciclo virtuoso de bondade e apreciação mútua.
É claro que, como qualquer virtude, a gratidão deve ser autêntica para ter valor. Uma gratidão forçada ou superficial não é verdadeira gratidão, e certamente não é o tipo de excesso que estamos celebrando. A gratidão genuína nasce da consciência, da reflexão e da capacidade de reconhecer o valor intrínseco das coisas, pessoas e experiências que compõem nossa jornada.
Talvez o mais fascinante sobre o excesso de gratidão seja que, quanto mais a praticamos, mais razões encontramos para sermos gratos. É como se o universo respondesse à nossa apreciação multiplicando as bênçãos. Não por magia, mas porque nossos olhos se tornam treinados para perceber o extraordinário no ordinário, o milagre no cotidiano. Ao final do dia, quando refletimos sobre nossas ações e pensamentos, raramente nos arrependemos de termos sido excessivamente gratos. Não há ressaca de gratidão, não há efeitos colaterais negativos. O único “risco” é nos tornarmos pessoas mais felizes, mais conectadas e mais conscientes do tecido precioso que é a vida.
Então, da próxima vez que alguém nos advertir sobre os perigos do excesso, podemos sorrir e lembrar: há um excesso que não apenas é perdoável, mas desejável. Um excesso que não esgota, mas renova. Um excesso que não limita, mas liberta. O excesso de gratidão é, paradoxalmente, o caminho para uma vida mais equilibrada, rica e significativa.
Que possamos todos ser “culpados” deste maravilhoso excesso, todos os dias de nossas vidas.
Dr. Aderval Aragão – é médico e cirurgião vascular

