“Chamado ou não, Deus estará presente.” — Carl Jung
Sim, o “deus” estará presente, mas em que forma para qual propósito? A afirmação está gravada em pedra acima da porta da casa de Jung, em Küsnacht, próximo a Zurique. Para lembrar aos pacientes e a ele próprio: Timor dei initium sapientiae (“O temor do Senhor é o início da sabedoria”).
Jung foi confundido pelos colegas por misturar religiosidade com ciência. Eu diria um bruxo. Na verdade, sempre quis desvendar o misticismo da vida e não a crença em alguém ou a algo. Queria entender o significado e a existência de Deus. Uma certeza e, ao mesmo tempo, um mistério.
Enquanto CERTEZA, Deus se constitui em uma “presença” com a qual se deva relacionar a todo instante. Enquanto MISTÉRIO, uma “presença” que sempre se retira ou se preserva de afirmações que pertençam a uma lógica da certeza.
Ao falar sobre religião, Jung está falando do Numinoso (do latim numen, divindade), do sagrado, do divino. Para ele, a religião é a expressão mais antiga da alma (psique) humana e para se conhecer Deus é preciso conhecer a Si Mesmo.
À medida que você se desnuda, chega mais perto Dele. A filosofia com a psicologia se confunde; ninguém mais que Jung demonstrou isso. Arquétipo é um conceito da psicologia utilizado para representar padrões de comportamento associados a um personagem ou papel social. De difícil entendimento, a partir da observação de que existem imagens que são formadas a partir da vivência de cada um, mas tem uma estrutura semelhante caracterizando padrões. São figuras e símbolos do inconsciente coletivo que influenciam nossas emoções, pensamentos e comportamentos. Seria o que chamamos de instinto. Pode ser herdado e preenchido, ou seja, atualizado, como se entende em psicanálise. É a imagem do instinto.
Muito antes de Jung começar a estudá-los, já existiam, como podemos observar em figuras mitológicas que habitam na mente das pessoas e de grupos. Os símbolos arquetípicos são encontrados nos mitos originais, nas mais variadas religiões, em lendas que já fazem parte da bagagem cultural coletiva, os quais marcam definitivamente a consciência e particularmente a esfera do inconsciente humano.
Eles foram muito utilizados na antiguidade para controlar e/ou gerar comportamentos e hoje com as mesmas finalidades. Nem percebemos o quanto influenciam o nosso dia a dia, mas estão presentes em muitas coisas que estão mexendo com nossas emoções inconscientemente.
Os 12 arquétipos junguianos são divididos em quatro subcategorias, de acordo com seu principal desejo motivacional. O arquétipo de “deus” existe desde que o primeiro ser humano, diante do desconhecido e do medo da morte, anunciou que era necessário agradar aos deuses para se prevenir contra as desgraças naturais.
Grandes citações de Jung merecidas de reflexão. Vejamos algumas: “O sofrimento precisa ser superado, e o único meio de superá-lo é suportando-o.”
“O que não enfrentamos em nós mesmos acabaremos encontrando como destino”.
“Só aquilo que somos realmente tem o verdadeiro poder de curar-nos.”
“Uns sapatos que ficam bem numa pessoa são pequenos para uma outra; não existe uma receita para a vida que sirva para todos.”
“Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana seja apenas outra alma humana.”
“A pior decepção de minha vida foi as pessoas não terem entendido o que eu quis dizer. Certamente elas sabem o que é um complexo, um introvertido, um extrovertido, tem uma noção de que, em minha concepção, sentimento e pensamento não ficam juntos numa cabeça só, mas outra coisa é entender o que eu disse com mais profundidade. Como jargão superficial, essas coisas são aceitas pelas pessoas, embora todos os professores digam que não passam de um absurdo!”
A preocupação não é como desembaraçar todos os empecilhos ao exercício de uma profissão, ao casamento ou a fazer qualquer coisa que signifique expansão de vida. Estamos diante do problema de encontrar o sentido que possibilite o prosseguimento da vida. O poeta irlandês John O’Donohue nos diz que a imaginação é a faculdade espiritual mais negligenciada no Ocidente intelectualizado. Ele adverte que as imensas riquezas que estão próximas à morte e à dor só estarão disponíveis para nós quando soubermos despertar a nossa imaginação. Diante da morte no sentido concreto ou analítico (fim de um começo), enfoca-se a ardência da alma.
O propósito é educar, apoiar e encorajar as pessoas em seus momentos de dor. Como guia para esse mundo interno profundo, estimular pacientes a mergulharem dentro de si mesmos para encontrar os recursos que permitirão a eles atravessar a solidão e a depressão. A enfrentar não apenas o caos e a incerteza, mas também sua própria mortalidade. Todo indivíduo precisa criar bons momentos durante a vida, para acumular recursos internos em tempos difíceis. Serão utilizados pela imaginação e memória.
Quem não ri ao relembrar de algo bom que aconteceu no passado? Os maus momentos serão cicatrizados com o tempo. Poderá haver gatilhos, e dor novamente. Há necessidade em trabalhar psiquicamente e deixá-los lacrados no baú da alma.
Por meio de sonhos e técnicas de visualização, os pacientes podem ter acesso a uma nova perspectiva e força interna. Também se tornam capazes de desenvolver uma nova relação interna com aqueles que haviam falecido. A partir disso, profundas curas e transformações; assim como mudanças sutis, ou seja, relembrar entes queridos que já se foram. A perspectiva de reencontrá-los atenua a dor do morrer.
Não sou a favor de que ao viver se deixe de realizar certos desejos por acreditar em uma nova vida após a morte. O que estou tentando transmitir é que durante processo da morte essa estratégia poderá ser útil para minimizar a dor psíquica.
Nesse mundo imaginário, a morte não está desligada do ciclo natural da vida. A morte não é um fim, mas um começo; não é uma catástrofe, mas uma transformação em algo maior. Para a imaginação, a morte não é o fim, mas a continuação da expressão da alma por meio de imagens.
Por diversas vezes escrevi que a morte é uma das grandes oportunidades de transformação para os que ficam. Em nossa cultura, luto significa morte. Eu diria que luto é tudo que perdemos para reiniciar algo novo. E se não fizermos seria a própria morte.
Morrer é dolorido para quem não viveu a vida que gostaria. Sempre haverá amores perdidos, trabalhos não realizados, falta de sucesso financeiro e outros milhares de exemplos. A maioria das situações depende do “outro”. Um laço só acontece quando as duas pontas se encontram. O que depende da nossa iniciativa, espontaneidade e coragem para enfrentar a vida é individual.
Um momento de introspecção, de voltarmos a nós mesmos, para fazermos as pazes com o passado, reconciliando-se com o sofrimento ressignificando.
Tanto Lacan como Freud acreditavam que o real inexiste. A comunicação é impossível, falha e nunca se completa o ciclo, existe um desvio que é o objeto de desejo.
O verdadeiro como absoluto não tem como alcançá-lo, muito menos entendê-lo. Não há saída para a vida nem saída para a angústia da existência. Não temos álibis para nós mesmos. O que temos é viver dentro do que acreditamos.
Dra. Maria Ofélia Fatuch – é médica e atualmente preside a Sobrames do Paraná

