Durante décadas, acreditamos que estávamos vencendo a mais silenciosa e persistente das guerras: a luta contra as doenças cardiovasculares. Munidos de dados robustos, diretrizes bem fundamentadas e campanhas educativas incessantes, aprendemos a identificar os vilões clássicos — hipertensão arterial sistêmica, diabetes mellitus, colesterol elevado, tabagismo, sedentarismo e obesidade. Desde o histórico Estudo de Framingham, iniciado na década de 1950, sabíamos onde atacar. E atacamos. Os resultados vieram. Ao longo de décadas, as mortes por infarto agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral (AVC ou derrame) caíram de forma expressiva. No entanto, por volta de 2010, algo inquietante ocorreu: a curva, antes descendente, estabilizou. Um platô desconcertante, em torno de 30%. A ciência havia avançado. A medicina também. Por que, então, o coração coletivo da humanidade parou de melhorar?
A resposta começou a ganhar contornos mais claros quando a American Heart Association (AHA) percebeu que controlar fatores de risco, isoladamente, não bastava. Era preciso mudar o foco: sair do enfrentamento exclusivo da doença e incorporar, de modo efetivo, a promoção da saúde. Surgiram, assim, as métricas do Life’s Simple 7, posteriormente ampliadas para o Life’s Essential 8, com a inclusão de um fator até então subestimado — a qualidade do sono. A meta era ousada: reduzir em 20% a mortalidade cardiovascular em uma década, promovendo hábitos saudáveis desde a infância até a velhice.
Todavia, a realidade mostrou-se mais dura, porque entre o que se recomenda e o que se pratica, há um abismo, apesar do esforço hercúleo das sociedades médicas, das campanhas públicas e da abundância de informação disponível. E ele não é teórico; é real, mensurável e local. Duas teses de doutorado, desenvolvidas no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da Universidade Federal de Sergipe, ajudam a explicar por que seguimos perdendo essa batalha. No campo da prevenção primária — ou seja, entre indivíduos que jamais sofreram infarto ou AVC — o médico Gilberto Tavares, orientado pelo professor José Augusto Barreto Filho, avaliou usuários do Programa Saúde da Família em Aracaju. O resultado foi alarmante: apenas 32% dos participantes cumpriam, de forma integral, as métricas de saúde cardiovascular propostas pela AHA. O estudo foi publicado na Frontiers in Cardiovascular Medicine, em 2022, evidenciando que, mesmo antes da doença se manifestar, a adesão às medidas preventivas é extremamente baixa. Se o cenário na prevenção primária já é preocupante, ele se torna ainda mais inquietante na prevenção secundária. Em tese orientada por mim, a nutricionista Ingrid Costa avaliou pacientes que sofreram infarto, atendidos tanto pelo SUS quanto pela rede privada. Esperava-se que a experiência de um evento potencialmente fatal funcionasse como um marco transformador. Contudo, seis meses após o infarto, menos da metade dos voluntários apresentava controle adequado dos fatores de risco da aterosclerose. Os achados foram publicados na revista Nutrition, em 2019, revelando uma dura verdade: nem mesmo o susto da morte iminente garante mudança sustentada de hábitos. Esses dados expõem uma realidade incômoda.
O problema não está na falta de conhecimento, mas na dificuldade de transformar informação em ação. Vivemos em um ambiente que favorece escolhas pouco saudáveis: alimentação ultraprocessada, jornadas de trabalho exaustivas, insegurança urbana, desigualdade social e pouco espaço para o autocuidado. Mudar o estilo de vida exige esforço contínuo, disciplina e, sobretudo, condições sociais que nem sempre estão disponíveis.
Como se não bastasse, a ciência tem mostrado que há inimigos silenciosos ainda pouco valorizados. Um novo conceito vem ganhando força: o exposoma. Ele engloba tudo aquilo a que somos expostos ao longo da vida — poluição do ar, ruído excessivo, doenças infecciosas crônicas, inflamação persistente e, de forma cada vez mais evidente, os transtornos mentais. Ansiedade, depressão, estresse crônico e isolamento social deixaram de ser apenas questões emocionais. Hoje, são reconhecidos como importantes fatores de risco cardiovascular. O coração não pulsa isolado; ele responde ao ambiente, às relações humanas, às pressões do cotidiano e às dores invisíveis da alma. Talvez, portanto, a pergunta correta não seja apenas por que as mortes cardiovasculares não reduzem. A questão mais profunda é por que insistimos em tratar o coração como um órgão isolado, quando ele reflete, de maneira implacável, a forma como organizamos nossa sociedade.
Enquanto políticas públicas não enfrentarem, de modo estrutural, a desigualdade social, a poluição, a precarização do trabalho e o descuido com a saúde mental, continuaremos combatendo consequências, e não causas. Prevenir doenças cardiovasculares exige menos heroísmo hospitalar e mais compromisso cotidiano com a vida. O coração continua perdendo não por falta de ciência, mas porque ainda não aprendemos — como indivíduos e como sociedade — a cuidar verdadeiramente dele.
Antônio Carlos Sobral Sousa – Professor Titular da UFS e Membro das Academias Sergipanas de Medicina, de Letras e de Educação

