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Quando a ciência floresce onde poucos esperavam

Quando a ciência floresce onde poucos esperavam

Há momentos na vida institucional que transcendem o protocolo. Não se trata apenas de uma solenidade, de discursos bem alinhados ou de homenagens cuidadosamente organizadas. Trata-se, sobretudo, de reconhecer quando a história muda de direção — silenciosamente, mas de forma irreversível.

A recente Sessão Solene realizada na Assembleia Legislativa de Sergipe, em homenagem aos integrantes do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da Universidade Federal de Sergipe, por iniciativa do Deputado Jorginho Araújo, foi exatamente isso: um marco. Um daqueles instantes raros em que o presente se curva diante de uma construção coletiva que levou décadas para amadurecer. A conquista da nota máxima (7) na avaliação quadrienal da CAPES não é apenas um número. É, antes de tudo, um selo de excelência com padrão internacional, reservado a um grupo extremamente restrito de programas no Brasil. Mas talvez o mais significativo não seja o resultado em si — e sim o que ele simboliza.

Por trás desse conceito, há anos de labor silencioso: orientações que atravessam madrugadas, projetos submetidos e ressubmetidos, artigos lapidados com rigor quase obsessivo, bancas, teses, frustrações e conquistas. Há, sobretudo, uma comunidade acadêmica que aprendeu a resistir — e mais do que isso, a persistir — em um ambiente historicamente marcado por desigualdades regionais. A homenagem na ALESE, portanto, não celebrou apenas um programa. Celebrou uma ideia: a de que a excelência científica não é privilégio geográfico.

Durante a cerimônia, tornou-se evidente que aquele reconhecimento institucional era, na verdade, o reflexo de uma construção coletiva — docentes, discentes, técnicos e gestores — todos imbricados em um mesmo propósito. Uma engrenagem silenciosa, movida por compromisso, disciplina e visão de futuro.E aqui reside um ponto que merece reflexão. Em um país frequentemente habituado a naturalizar assimetrias, a conquista do PPGCS-UFS rompe uma narrativa antiga: a de que o centro da produção científica brasileira estaria restrito a determinados eixos. Sergipe, com sua dimensão territorial modesta, projeta-se agora como um polo de excelência acadêmica, reafirmando que o conhecimento não reconhece fronteiras — apenas compromisso.

Não por acaso, a Universidade Federal de Sergipe responde por cerca de 90% da produção científica do estado. É dessa base sólida que emergem conquistas como esta — não como eventos isolados, mas como expressão de um projeto institucional consistente.

Ao assistir àquela sessão solene, mais do que ouvir discursos, era possível perceber algo mais profundo: um sentimento coletivo de pertencimento. Não apenas dos homenageados, mas de todos que, de alguma forma, reconhecem na ciência um instrumento de transformação social.

Porque, no fundo, é disso que se trata.

Cada tese defendida, cada artigo publicado, cada orientação concluída carrega consigo um potencial que ultrapassa os muros da universidade. Traduz-se em impacto real — na saúde, na formação de profissionais, na qualidade de vida da população. A nota 7, nesse contexto, deixa de ser apenas um indicador acadêmico. Torna-se um símbolo. Um lembrete de que investir em ciência é investir em futuro.

Ao reconhecer publicamente a excelência do PPGCS-UFS, Sergipe não apenas celebra uma conquista — afirma, com convicção, que acredita no poder transformador do conhecimento. E, em tempos de incerteza, essa talvez seja a mais necessária das certezas. Como nos lembra o jurista, intelectual, educador e escritor brasileiro Anísio Teixeira: “Só existirá democracia no Brasil no dia em que se montar, no país, a máquina que prepara as democracias — a escola pública”.

Antônio Carlos Sobral Sousa- Professor Titular da UFS e Membro das Academias Sergipanas de Medicina, de Letras e de Educação

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