
A crise da pediatria em Sergipe, marcada pela escassez de leitos pediátricos, é um problema que se repete ano após ano. Durante o período de doenças respiratórias sazonais, a procura por atendimento médico aumenta significativamente devido a doenças como bronquiolite, síndrome gripal, pneumonias, asma e, nos últimos dois anos, dengue. Só no Hospital da Criança, entre 1º e 30 de maio, foram registrados 4.331 atendimentos, conforme dados da Sociedade Sergipana de Pediatria (Sosepe).
Para pais como Robson Silva Vieira, a busca por atendimento pode ser desesperadora. Após três dias de febre e uma piora significativa nos sintomas, ele levou seu filho Gabriel Felipe, de cinco anos, ao Hospital e Maternidade Santa Isabel, em Aracaju, apenas para descobrir que não havia vagas devido à superlotação. “A gente imaginou que em casa, tomando a medicação, ele poderia melhorar, mas não foi o que aconteceu. Apareceram essas feridas, por isso eu preferi levá-lo à urgência para conseguir um atendimento. Porém, chegando aqui, a moça do Santa Isabel falou que não tem vaga, infelizmente. Vamos tentar um outro hospital agora”, relatou.

A direção do Hospital e Maternidade Santa Isabel reconheceu a dificuldade e informou que todos os setores de internação estão operando em capacidade máxima. Uma nota oficial esclareceu que todos os 22 leitos da urgência pediátrica estão ocupados, com 12 pacientes aguardando vaga em UTI pediátrica e 10 em enfermaria. As equipes assistenciais, incluindo médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e técnicos de enfermagem, estão trabalhando arduamente para prestar a melhor assistência possível em um cenário tão adverso. Casos graves têm entrada direta na instituição, enquanto casos leves são direcionados para unidades de baixa complexidade.
A médica pediatra e presidente da Sosepe, Dra. Ana Jovina, destacou a carência histórica de leitos de UTI pediátrica em Sergipe, com uma queda de 689 leitos em 2008 para 313 em 2022. Durante o período de sazonalidade, os serviços de pediatria ficam sobrecarregados, com profissionais exaustos devido ao aumento absurdo no número de atendimentos e à gravidade dos casos. Segundo ela, a superlotação é causada por diversos fatores, incluindo a falta de planejamento integrado entre a atenção primária e especializada no estado.

Ela reconheceu que a Secretaria de Estado da Saúde montou um grupo técnico para planejar o enfrentamento à sazonalidade, que vem trabalhando muito, mas lembrou que esse enfrentamento não depende só do Estado. “Os municípios também precisam ter o plano para a sazonalidade e oferecer à população infantil um atendimento adequado, rápido e com profissionais qualificados e capacitação. Temos também a dificuldade de aumentar os leitos críticos em função da necessidade de mão de obra muito especializada”, explica.
O que diz a saúde estadual
A Secretaria de Estado da Saúde informou que está investindo na ampliação da rede hospitalar, com a adição de 68 novos leitos pediátricos em 2023, totalizando 306 leitos. A previsão é de uma ampliação adicional de 40 leitos nos próximos dias. Um processo seletivo para contratação de profissionais está em andamento, mas dos 30 profissionais convocados recentemente para o Hospital da Criança, apenas três compareceram.
O diretor operacional da SES, Waltenis Júnior, revelou que o Hospital da Criança atendeu uma média de 2.500 crianças por mês em janeiro e fevereiro deste ano, número que aumentou para 4.331 atendimentos em março e abril devido à sazonalidade, com uma perspectiva de 5.000 atendimentos em maio.
Catharina Costa, superintendente do Hospital da Criança, afirmou que medidas estão sendo tomadas para ampliar os leitos. “Sabemos que em agosto essa demanda tende a diminuir, estamos concentrando todos os esforços para dar continuidade ao atendimento com qualidade aos pacientes pediátricos”, disse. Ela destacou que 71% dos atendimentos são de pacientes classificados como verde, que poderiam ser atendidos nas Unidades Básicas de Saúde, deixando o hospital para casos de média complexidade.
Com cerca de 40 crianças precisando de um leito de UTI em Sergipe, a pediatra Dra. Ana Jovina orienta os pais sobre medidas preventivas para evitar o adoecimento dos filhos, como o aleitamento materno prolongado, uma dieta adequada, manter o calendário vacinal atualizado, evitar aglomerações e a lavagem frequente das mãos. Além disso, é crucial buscar informações em canais seguros e estar atento aos sinais de gravidade das doenças respiratórias, principalmente a bronquiolite, que afeta gravemente crianças pequenas.

