Rômulo Silva
Médico angiologista
Minha mãe dizia que as crianças eram anjos enviados por Deus pra aliviar as nossas dores (dores de se viver), fortalecer a fé e alimentar a esperança. Levei muito tempo pra entender o que ela queria dizer.
A verdade é que a pureza de uma criança, a sua alegria sincera são bálsamos que aliviam o amargor dos dias e nos tornam mais sensíveis. Pelos menos pra alguns.
Envelhecer é lembrar e se despedir. É na memória que, paradoxalmente, a velhice encontra a vida. Enquanto a memória existir haverá vida. Lembro da minha mãe contando que quando eu nasci passei uma curta temporada morando com os meus avós maternos e minhas tias. Tempo suficiente para que todos se apegassem. Um dia, eu e minha mãe tivemos que partir.
Esta mudança, dizia minha mãe, foi um período difícil de adaptação pra todos, os que ficaram e para nós que partimos, de tal maneira que por algumas vezes foi preciso ela me levar de volta para a casa dos meus avós. Essa memória afetiva, nascida nos primórdios da minha existência, consolidou uma relação forte com a minha familia materna e ficou pra sempre, sobrevivendo até os dias atuais.
Há um ano e dois meses nasceu o meu neto Pedro. Neste período, sempre mantivemos convívio constante, mas momentâneo. Há cerca de 20 dias, Pedro e os pais vieram morar, provisoriamente conosco para que a reforma da nova moradia deles fosse concluída. Neste breve período, que pareceu uma eternidade, eu pude entender mais profundamente as palavras da minha mãe quando ela se referia às crianças. A leveza, o carinho, o sorriso fácil, o choro dengoso, beijos e olhares espontâneos, são coisas realmente angelicais.
Ontem foi o dia da partida, Pedro foi embora com os pais pra sua casa nova. Que seja um lar de muita paz e harmonia pra eles, que ele cresça e preserve na sua memória afetiva a beleza dos seus dias angelicais. Em tão pouco tempo, mas de muita intensidade, Pedro deixou marcas profundas de um anjo nas nossas vidas. Virou de cabeça pra baixo o nosso apartamento e as nossas vidas.
Depois que ele foi embora entrei no quarto onde ele ficou com os pais, outrora o quarto da sua mãe, e encontrei um pequeno brinquedo, talvez deixado de propósito, quem sabe, pra que não o esquecêssemos, como se isso fosse possível.
Minha mãe tinha razão, crianças são anjos. Nesta curta temporada de convívio intenso, as lembranças de instantes profundos marcaram pra sempre o nosso tempo e encerraram dúvidas sobre a verdade de ser criança. A sua pureza, bondade e ingenuidade nos ajudam a afugentar a desesperança. As crianças fortalecem a fé, algumas vezes abalada pela frieza do mundo, revigoram a memória dos dias felizes que tivemos, das curtas temporadas. As crianças dão sentido à vida, sobretudo quando a vida muitas vezes já não tem muito sentido.
Rômulo Silva – é médico angiologista e cirurgião vascular, integra a Sobrames Sergipe.

