Vim descansar, durante dois dias, no período junino, num povoado do interior de Sergipe. Recebi uma visita honrosa: uma jovem, a Roberta*, que descobriu ter o HIV aos 19 anos e tem uma importante história de superação.
Tudo começou no ano de 2018, quando ela passou a apresentar um corrimento vaginal abundante. A tia a aconselhou a ir ao CTA de Aracaju para fazer os testes rápidos para HIV, sífilis e hepatites virais. O teste deu reagente para HIV. O mundo parecia ter desabado na cabeça da Roberta*. Por meio de parentes dela, que são meus amigos, fui naquele ano ao povoado onde ela morava e tive o primeiro contato logo após ela ter recebido o resultado do teste. Encontrei-a bastante triste; chorava muito.
Conversamos muito sobre o que iria mudar na vida dela. Mais cuidados com a saúde, pois se tratava de uma infecção pelo HIV, hoje considerada crônica, mas que, com muita dedicação, apoio e amor à própria vida, ela iria vencer esse momento difícil.
Expliquei que teria acesso ao tratamento gratuito, porém seria importante que usasse os medicamentos corretamente e realizasse os exames recomendados. Coloquei-me à disposição para ajudá-la, no que fosse possível, a encarar esse desafio. Nós a incluímos no programa social das cestas básicas, na Secretaria de Inclusão Social do Estado de Sergipe. Começou a TARV (terapia antirretroviral) com sucesso. Com boa adesão, tornou-se indetectável.
Casou-se e engravidou em 2021. Como estava indetectável e contando com uma boa adesão ao tratamento e boa assistência no pré-natal, deu à luz, no ano de 2022, um belo e inteligente garoto, Fernando*, que acabei de conhecer nesse dia de São João. O garoto nasceu sem o HIV.
O parceiro de Roberta* vem repetindo os testes de HIV e continua soronegativo. Brinquei muito com Fernando*, criança bastante alegre e de fácil interação com as pessoas.
Hoje Roberta*, que tem 25 anos, recebe o Cartão Mais Inclusão (CMais Alimentação) para Pessoas Vivendo com HIV/Aids, por meio da Secretaria de Estado da Assistência Social e Cidadania (Seasc), que dá direito à compra de alimentos, e recebe também ajuda de amigos e familiares.
Confesso que foi um grande presente, no período junino, rever Roberta* tão bem clinicamente e feliz com o filho Fernando*, que está completando 3 anos e já está na escolinha. Roberta* me revelou que o que mais a encorajou a seguir um tratamento correto e com boa adesão foi a esperança que tinha de ter um filho saudável.
Mesmo com 37 anos de luta contra o HIV e 43 anos de formado como médico, continuo me emocionando. Encaro várias barreiras no dia a dia, mas continuo com disposição de ajudar. Esse é o meu objetivo: ajudar enquanto posso e até onde posso. Quando Roberta* e Fernando* saíram, deixaram no meu coração o sentimento de dever cumprido e também de felicidade profissional.
A gratidão a todos os profissionais de saúde envolvidos na prevenção da transmissão vertical, no Cemar, nas maternidades, nas UBS e na nossa equipe da SES. Quando todos fazem o seu papel, nasce Fernando* saudável. A gratidão também à Seasc. É impossível encarar o HIV sem responsabilidade social, sem respeitar os direitos humanos das pessoas que vivem com o HIV.
*Roberta e Fernando são nomes fictícios.
Dr. Almir Santana – médico sanitarista, sobramista

