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Uma sociedade do abandono: o caso do Instituto Parreiras Horta

“Por que a beleza importa? Porque ela é irmã da verdade e da bondade.”

Um amigo, que muito prezo, foi estudar na Alemanha. Na cidade onde ficou havia uma capela que tinha sido destruída, por guerras, algumas vezes, em diversas épocas, mas sempre foi reconstruída. No local havia uma placa informando os períodos em que ela foi reconstruída. Intrigado, meu amigo perguntou ao professor por que eles insistiram em reconstruir a capela. O professor respondeu que a capela estava naquele lugar desde o início da cidade, ela era o maior símbolo da identidade deles.

Eu também estive na Alemanha e vi de perto cidades que foram quase que totalmente destruídas, por bombardeios, durante a segunda guerra mundial. E foram, pacientemente, reconstruídas, do mesmo jeito que eram, a partir de registros fotográficos, principalmente. Os alemães e outras nações que passaram por guerras, não quiseram perder sua identidade, sua cultura, e a beleza arquitetônica de suas cidades. A reconstrução de tudo foi o primeiro passo para sobreviverem à catástrofe da guerra. É como se dissessem não à morte da sua história e deles mesmos. A guerra matou milhares de alemães, mas não conseguiu matar sua cultura e sua história e, por isso, eles sobreviveram.

A Alemanha continua forte e autêntica, eu vi com os meus olhos o que os livros já haviam me contado. Há edificações reconstruídas ou preservadas contando a história, mesmo que algumas delas representem o mal, como os edifícios de Nuremberg ou os prédios de uma enorme praça, a Königsplatz, em Munique, onde os nazistas se concentravam para fazer comícios, ou ainda os campos de concentração e extermínio como o de Dachau, também em Munique. Está tudo lá, preservado, eu vi!

E por aqui, na nossa aldeia??? Bastou uma breve tempestade, na madrugada, para destruir parte de um símbolo da história da cidade de Aracaju, há muito abandonado, o Instituto Parreiras Horta. Lamentável ver a sua bela cúpula ferida de morte. Muito mais lamentável é assistir ao abandono do edifício que abrigou os sonhos científicos e acadêmicos de uma época em que grandes homens pensaram Sergipe. O prédio que abrigou os primórdios da minha querida faculdade de Medicina.

Afinal, quem somos nós, sergipanos? Eu ando pelas ruas de Aracaju à procura de respostas e pouca coisa fala da gente. Sou obrigado a ouvir ritmos alucinados que não são meus, percorro ruas antigas com casarões abandonados, em ruínas, que no outro dia já não existem mais. Pouco sobrou da arquitetura que possa nos contar, sem palavras, coisas de outros tempos.

Quando eu era estudante de medicina costumava percorrer a Av. Barão de Maruim, onde havia a linda casa do pai da Medicina sergipana, Dr. Augusto Leite, já fechada há muito tempo, mas eu a admirava e, naquele breve instante de passagem, eu sentia a vida do passado. Um dia ela foi demolida, sem aviso prévio. O Cineteatro Rio Branco teve o mesmo fim. O Palácio Inácio Barbosa aguarda o seu destino, uma tempestade mais forte pra desaparecer, é o que esperam os homens do nosso tempo. Será que o Instituto Parreiras Horta terá o mesmo fim? Recorro às minhas ilusões para dizer que não. Quem sabe a bondade e a verdade inspirem os homens de hoje e, elas, que são irmãs da beleza, fomentem neles o impulso necessário para reconstruir o Instituto para que ele possa servir ao nosso tempo e a todos os tempos futuros, contando parte da nossa história, antes que ela desapareça e percamos também, definitivamente, a nossa identidade.

Rômulo de Oliveira Silva – integra a Sobrames Sergipe e é membro da Academia Itabaianense de Letras

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