
Em 1942, o império nazista estava no auge e os Estados Unidos haviam entrado na guerra após o ataque traiçoeiro à base de Pearl Harbor, no Pacífico. O governo brasileiro avançava para uma posição favorável aos aliados na Segunda Guerra e Hitler despacha seus submarinos para o Atlântico Sul, para as costas do Brasil, fugindo da ameaça americana. A ordem é para que promovam ações de sabotagem e torpedeamento dos principais portos brasileiros, visando impedir a rota de suprimentos e o deslocamento de tropas. Quando os submarinos já estão na região, a ordem é estrategicamente suspensa.

Mas não perdem a viagem. Um deles aproxima-se perigosamente da gente. O U-boat 507, comandado pelo Capitão-de-Corveta Harro Schacht, navegando no trajeto de Recife para Salvador, ao passar pelo litoral sul de Sergipe, ataca o navio Baependi, nas proximidades da foz do Rio Real e que seguia de Salvador para Recife. O relógio girava em torno das 19 horas do dia 15 de agosto de 1942. Um torpedo disparado acerta o navio mercante, que afunda em quinze minutos, ceifando a vida de duzentos e setenta pessoas, muitas delas mulheres e crianças. Somente trinta e quatro conseguem sobreviver, chegando exauridos à praia do Abaís e do Saco no transcorrer do dia seguinte, alguns deles agarrados aos destroços e uma boa parte apinhada no único bote que sobrou do naufrágio. Minutos depois, o U-boat avista o navio Araraquara, que tem igual destino. Não tarda, na mesma rota vem o Aníbal Benévolo que, este sim, entraria no porto de Aracaju, proveniente do Rio de Janeiro, trazendo muitos sergipanos. Também vai a pique atingido por torpedos do U-507, por volta das quatro horas da madrugada. Em suma, três navios são afundados, um após outro, deixando grande número de mortos e náufragos, em um espaço de apenas nove horas.
A tragédia do Baependi é a maior entre todas as que se abatem sobre os navios brasileiros durante a Segunda Guerra Mundial. Em nenhum outro torpedeamento há tantas vítimas. Somado os três navios afundados, o U-507 causa a morte de aproximadamente seiscentos brasileiros. No dia 17, o coronel Augusto Maynard Gomes, interventor federal que governa o estado toma o seu café da manhã em palácio quando é alertado por oficiais da marinha que o “Aníbal Benévolo”, que deveria chegar em Aracaju no dia anterior, não dera sinal de vida. Preocupado, aciona os chefes das forças armadas e especialmente, Walter Baptista, coordenador de um grupo de aviadores amadores que havia recebido do governador Eronides Carvalho um avião para o aeroclube de Sergipe, em 1939. Walter fazia voos de treinamento ao lado de outros pilotos amadores, entre eles Durval Maynard, Lindolfo Calazans, Valter Rezende, Arivaldo Carvalho e Evandro Freire e, quando a guerra se desloca para o Atlântico Sul, passa também a vigiar as nossas praias, com incursões de reconhecimento pelo litoral sergipano, logo ao raiar do dia. Na época, o Aeroclube já contava com cinco teco-tecos. Maynard pede a Walter que sobrevoe as praias na tentativa de descobrir o motivo do atraso do navio.
As notícias de torpedeamento de navios brasileiros em rotas internacionais já eram conhecidas, mas ninguém imaginava que a guerra estivesse tão próxima. Walter chama Lourival Bomfim, médico e companheiro de aventuras, também aviador e juntos decolam. O que eles veem é desolador e sem ainda saber, são expectadores do fim de uma noite de tragédia e início de um dia de lágrimas. Corpos misturados a restos das embarcações, nas areias da praia, encontram mais de cinquenta. Até então não sabiam ao certo o que teria provocado a tragédia. O que poderia ter sido um inesperado naufrágio revela-se, porém, algo pior. Walter e Lourival chegam a ver, do alto, pessoas saindo da água, cambaleantes, em trapos, feridas e ensanguentadas. Aterrizam o pequeno avião na areia da praia, prestamos primeiros socorros e então ficam sabendo, atônitos, o motivo real do ocorrido. Entre os sobreviventes, dois médicos, Viterbo Storry e Zamir de Oliveira. No momento do ataque, enquanto uma animada festa rolava no salão principal do Baependi, eles conversavam no convés. Ambos haviam sido nomeados para o Serviço Nacional da Peste em Pernambuco. Muitos feridos são levados a Estância, onde recebem atendimento no Hospital Amparo de Maria, graças à ação dos médicos Jessé Fontes, Clovis Franco, Pedro Soares, entre outros. Os feridos não param de chegar. Na praia os corpos inertes, sem vida, são enfileirados e para lá se dirigem forças policiais acompanhadas do Dr. Carlos de Menezes, médico legista que, com a ajuda do Dr. Aloysio Coutinho Neves, autopsia os cadáveres, descrevendo as lesões encontradas.
Os aviões do Aeroclube também pousam nas praias de Atalaia e do Mosqueiro, onde dezenas de corpos, trazidos pelo mar, perfilam um quadro dantesco e aterrorizador.
Os sergipanos, em estado de choque, agora com a grande guerra à porta, temem que ela se alastre por toda a cidade. Fazem treinamentos e à noite, com a cidade às escuras, recolhem-se aos seus lares. Com a fuga do submarino, a sensação de alívio é geral, não sem os traumas que levam a população ensandecida a promover atos de depredação e até tentativas de agressão aos imigrantes alemães e italianos, estabelecidos em nosso Estado.
Outros torpedeamentos ainda ocorrem na rota destruidora do U-Boat 507. Em 17 de agosto, no litoral norte da Bahia, o Arará e o ltagiba são afundados pelo comandante Harro, resultando em mais cinquenta e seis mortes.
A tragédia no litoral sergipano desencadeia de pronto a reação do Governo brasileiro. Em 22 de agosto, o presidente Vargas reúne seu Ministério, que aprova por unanimidade a situação de beligerância entre o Brasil e as nações agressoras. Em 31 de agosto, finalmente, o Brasil declara guerra à Alemanha e à Itália.
Harro Schacht, carrasco dos navios mercantes brasileiros, não fica impune e é morto quando o U-507 afunda com toda a sua tripulação em 13 de janeiro de 1943 no Atlântico Sul, atingido por bombas de um avião americano Catalina.
Passados 82 anos do torpedeamento dos navios mercantes brasileiros nas costas de Sergipe e da Bahia, muita coisa ainda há por ser conhecida, como a própria razão dos ataques, a rota seguida por muitos sobreviventes até chegar a povoados e aos hospitais, principalmente o de Estância, o destino dos malafogados, a ação dos saqueadores e finalmente o perfil dos aviadores amadores civis que participaram do esforço de guerra.
O descaso e a ingratidão dos homens fazem com que esse episódio ao mesmo tempo épico e dramático seja desconhecido da maioria dos sergipanos. Entretanto, notícias auspiciosas aos poucos vão chegando, com os trabalhos de historiadores vinculados à nossa UFS e outros pesquisadores, além do trabalho incansável do Grupo Sergipano para Estudos da FEB – Grusef, que vem empreendendo ampla discussão sobre a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial, com a realização de seminários e ações que visem promover a construção de um Memorial dos Torpedeamentos em nosso Estado.
Vale ressaltar em todo esse episódio, a efetiva participação da Capitania dos Portos de Sergipe, no processo de acompanhamento e de resgate das vítimas e, desde então, pelas ações contínuas que vem realizando com o objetivo de reverenciar as vítimas do infame acontecimento.
Iniciativas que fazem com que os nossos heróis jamais sejam esquecidos.
Lúcio Antônio Prado Dias – é médico, escritor, da Academia Sergipana de Letras e membro do Grusef

