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Um parque que cuida do coração

Um parque que cuida do coração

Há lugares que parecem fazer um convite silencioso ao movimento. O Parque Governador Augusto Franco, mais conhecido como Parque da Sementeira, é um deles. O verde abundante, as pistas de caminhada e a convivência de diferentes gerações transformaram esse patrimônio em ponto de encontro entre lazer, natureza e saúde.

Em artigo anterior, destaquei a Sementeira como cenário privilegiado para a prática de exercício físico. Volto ao tema por uma razão oportuna: recentemente, a Prefeitura Municipal de Aracaju instalou, em pontos estratégicos do parque, dois totens equipados com Desfibriladores Externos Automáticos (DEA), destinados ao atendimento inicial de vítimas de parada cardiorrespiratória. A medida acrescenta uma palavra indispensável ao estímulo à atividade física: segurança.

Promover o exercício é uma das estratégias mais eficazes para prevenir doenças cardiovasculares e melhorar a qualidade de vida. Caminhar, correr, pedalar e realizar atividades de fortalecimento muscular contribuem para o controle da pressão arterial, do peso, da glicemia e do colesterol, além de melhorar a capacidade funcional e o bem-estar. Mas incentivar a população a utilizar espaços públicos para exercícios exige que esses locais estejam preparados para emergências.

A parada cardiorrespiratória constitui uma corrida contra o tempo. Quando decorrente de arritmias graves, como fibrilação ventricular e taquicardia ventricular sem pulso, a desfibrilação precoce pode ser decisiva. Cada minuto importa, e um DEA próximo pode representar a diferença entre a vida e a morte.

O DEA analisa o ritmo cardíaco, indica o choque apenas quando necessário e fornece comandos de voz que orientam o socorrista. Não substitui a assistência médica nem o SAMU, mas permite iniciar medidas fundamentais enquanto a equipe especializada está a caminho.

A presença do aparelho, porém, não basta. É preciso reconhecer uma parada cardiorrespiratória, acionar o serviço de emergência, iniciar as compressões torácicas e utilizar corretamente o desfibrilador. Por isso, foi importante a capacitação de guardas municipais e funcionários do parque para operar os equipamentos até a chegada do SAMU.

A iniciativa resultou de parceria da Prefeitura Municipal de Aracaju com a Cooperativa dos Anestesiologistas de Sergipe (COPANEST/SE) e a Sociedade de Anestesiologia do Estado de Sergipe (SAESE), demonstrando como o poder público e entidades médicas podem unir esforços para proteger vidas. É importante desfazer um equívoco: a ocorrência eventual de morte súbita durante atividade física não transforma o exercício em vilão. Ao contrário, sua prática regular e adequadamente prescrita reduz o risco cardiovascular. Devemos estimular o abandono do sedentarismo com responsabilidade, respeitando idade, condição clínica, capacidade funcional e fatores de risco.

Pessoas aparentemente saudáveis podem iniciar atividades leves a moderadas de maneira progressiva. Já indivíduos com doença cardiovascular conhecida, sintomas durante o esforço, múltiplos fatores de risco ou longo período de inatividade necessitam de avaliação médica antes de exercícios mais intensos. Dor no peito, falta de ar desproporcional, palpitações, tontura ou desmaio durante o esforço não devem ser negligenciados. A segurança começa antes da emergência: com prevenção, orientação e conhecimento dos próprios limites. Completa-se com uma estrutura capaz de responder rapidamente quando o inesperado acontece.

Os DEA da Sementeira possuem também relevante valor educativo. Sua presença chama a atenção para um conhecimento que deveria fazer parte da cultura coletiva: todos podemos contribuir para salvar uma vida. Reconhecer uma parada cardiorrespiratória, acionar o SAMU, realizar compressões torácicas e utilizar um DEA são habilidades que não deveriam ficar restritas aos profissionais da saúde.

Seria desejável que escolas, universidades, clubes, academias, centros esportivos, praças, parques, aeroportos e outros locais de grande circulação dispusessem desses equipamentos e de pessoas capacitadas. Criar ambientes cardioprotegidos significa compreender que a emergência cardiovascular não escolhe hora nem endereço.

Por isso, a iniciativa da Sementeira não deve representar um ponto de chegada, mas um ponto de partida. Merecem cumprimentos a prefeita Emília Corrêa, a Prefeitura Municipal de Aracaju, a COPANEST/SE e a SAESE. Mais do que instalar dois equipamentos, introduz-se em um dos espaços públicos mais frequentados da capital uma cultura de prevenção, prontidão e responsabilidade coletiva.

Que o exemplo se multiplique em Aracaju e no interior de Sergipe. Democratizar o acesso ao exercício é promover saúde; democratizar o acesso à desfibrilação precoce é oferecer uma oportunidade adicional de preservar a vida quando cada segundo conta.

Continuemos dizendo “sim” ao exercício físico. Que nossas praças e parques estejam cada vez mais ocupados por crianças, jovens, adultos e idosos em movimento, mas também preparados para protegê-los. A Sementeira, que já oferecia natureza, movimento e qualidade de vida, dá agora mais um passo: associa à promoção da saúde uma estrutura para enfrentar uma das mais graves emergências cardiovasculares.

Exercitar-se faz bem ao coração. Exercitar-se em um ambiente preparado para protegê-lo é ainda melhor.

Prof. Dr. Antônio Sobral Sousa – professor Titular da UFS, Membro das Academias Sergipanas de Medicina, de Letras e de Educação

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