Uma doença não muda de gravidade ao atravessar a fronteira de um município. A aorta, grande artéria que leva o sangue do coração ao corpo, não conhece o endereço de quem adoece. Mas o caminho entre o diagnóstico e o tratamento pode ser muito diferente conforme o lugar onde a pessoa vive. É essa distância, invisível no exame de imagem, que merece ser observada.
Em editorial recém-publicado no Journal of the American Heart Association (DOI: 10.1161/JAHA.126.053459), os colegas José Augusto Soares Barreto-Filho e Carisi Anne Polanczyk comentam uma ampla investigação sobre o cuidado de pessoas com doença da aorta torácica na Inglaterra. O estudo acompanhou, por meio de bases nacionais de saúde, 33.793 indivíduos diagnosticados entre 2013 e 2018. Seu alcance permitiu enxergar não apenas desfechos, mas etapas do percurso assistencial: exames de acompanhamento, avaliação genética e intervenções programadas.
Os números exigem atenção. Nos seis meses após o diagnóstico, 32,5% realizaram exames de imagem para vigilância, 14,1% foram submetidos a intervenção eletiva e apenas 1,1% receberam avaliação genética. Idade mais avançada, sexo feminino e maior privação socioeconômica estiveram associados a maior mortalidade em um ano. Também houve variação geográfica relevante na oferta de vigilância e de intervenções, mesmo após ajustes para características mensuradas dos pacientes.
À primeira vista, um mapa com regiões de cores diferentes pode parecer apenas uma fotografia das desigualdades. O mérito do editorial está em pedir que olhemos além das cores. Onde o acompanhamento falha? Há dificuldade de encaminhamento, falta de especialistas, limitação para exames ou obstáculos enfrentados pelos próprios pacientes? Os bancos de dados ajudam a localizar o problema; para compreender suas causas, é preciso investigar a realidade de cada serviço e de cada território. Os autores fazem uma advertência indispensável: uma taxa menor de cirurgia ou de exames não prova, isoladamente, atendimento inadequado. A indicação depende da anatomia da aorta, da gravidade da doença, do risco operatório, da expectativa de vida e das preferências da pessoa atendida. O estudo também não alcança quem morreu antes de chegar ao hospital. Portanto, suas associações não demonstram relações de causa e efeito. Essa prudência dá força, e não fraqueza, à reflexão.
Para nós, brasileiros, a leitura tem ressonância particular. O editorial menciona a plataforma iCardio, que utiliza dados nacionais para identificar diferenças regionais no cuidado cardiovascular, e o Registro VICTIM (J Am Heart Assoc. 2019;8:e013057), idealizado e coordenado pelo Prof. José Augusto Barreto-Filho, do qual participei como coautor. O estudo analisou 707 pacientes portadores de infarto agudo do miocárdio com supradesnivelamento do segmento ST: 589 usuários exclusivos do Sistema Único de Saúde (SUS) e 118 atendidos pela rede privada, em hospitais sergipanos com capacidade para realizar angioplastia primária. O tempo médio entre o início dos sintomas e a chegada a esses hospitais foi de 25,4 h entre os pacientes do SUS, comparado a 9 h na rede privada. A angioplastia primária foi realizada em 45% e 78% dos pacientes, respectivamente. Em 30 dias, a mortalidade foi de 11,9% no grupo SUS e de 5,9% no grupo privado.
Os autores do Registro VICTIM concluíram que os pacientes do SUS demoraram quase três vezes mais para chegar a um hospital com capacidade para angioplastia, receberam menos frequentemente esse tratamento e apresentaram maior probabilidade de morrer nos 30 dias seguintes. Os números dão dimensão humana à distância entre existir um tratamento e conseguir alcançá-lo a tempo.
O acesso universal é uma conquista essencial, mas a existência de uma porta de entrada não garante, por si só, que todos percorram o restante do caminho no tempo e nas condições necessárias. Organizar fluxos de referência, acompanhar resultados, corrigir falhas e garantir que o conhecimento científico chegue a quem dele precisa são tarefas tão decisivas quanto desenvolver novas tecnologias. Na cardiologia, gostamos de ver com nitidez a imagem de uma artéria. Talvez devamos dedicar a mesma atenção ao trajeto da pessoa que precisa ser cuidada. Quando a ciência ilumina os lugares onde esse trajeto se interrompe, o mapa deixa de ser apenas descrição. Pode tornar-se o começo de uma mudança.
Como lembra a epígrafe do editorial, atribuída a Johann Wolfgang von Goethe: “Saber não é suficiente; devemos aplicar. Querer não é suficiente; devemos fazer.” O desafio, agora, é transformar os dados que revelam as desigualdades em ações capazes de reduzir a distância entre o conhecimento científico e o cuidado que chega ao paciente.
Prof. Dr. Antônio Sobral Sousa – professor Titular da UFS, Membro das Academias Sergipanas de Medicina, de Letras e de Educação

