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A fenda

Porquinho de louça inteiro e quebrado com moedas espalhadas
Ilustração: Divulgação

O porco de louça não era um cofrinho. Era uma metáfora silenciosa sobre a relação humana com o tempo e o acúmulo. Ali, imóvel no alto do guarda-roupa, ele representava algo que a correria do cotidiano insiste em ocultar: que juntar é mais fácil que romper, e que o valor das coisas não está no que elas são, mas no que prometem ser.

Cada moeda que tilintava ao cair na fenda carregava uma pequena dose de futuro. Um sorvete amanhã, uma revista no fim do mês, um presente imprevisto. O gesto de depositar era quase automático — sobrava um trocado, e lá ia ele, sem cerimônia, para o escuro do ventre de louça. A facilidade do ato escondia uma verdade incômoda: acumular exige pouco esforço, desde que não se pense muito no destino daquilo que se guarda. O porco sabia disso. Seu sorriso maroto não era de quem esconde um segredo, mas de quem observa, paciente, a nossa dificuldade em decidir. O problema nunca foi encher. O problema sempre foi esvaziar.

Porque romper o invólucro — seja ele de louça, de papel, de hábito ou de certeza — exige uma violência que a alma evita. Sacudir o porco por vinte minutos, tentando extrair uma moeda teimosa, era a imagem perfeita da procrastinação: o esforço imenso para não fazer o que precisa ser feito. Enfiar uma faca pela fenda e equilibrar a moeda na lâmina era a engenharia do autoengano, a tentativa de resolver sem quebrar, de mudar sem destruir, de colher sem perder a segurança do recipiente intacto. E havia, claro, o método definitivo: erguer o porco e soltá-lo no chão. O baque seco, os cacos espalhados, as moedas rodando pelo piso da cozinha. A libertação que só vem quando se aceita que algumas coisas não podem ser abertas com cuidado — precisam ser despedaçadas para que o que está dentro finalmente venha à tona. O sorriso do bichinho partido ao meio era o preço da ação.

Talvez por isso a maioria deixasse o porco quieto lá em cima. As moedas iam se acumulando sem querer, e o silêncio do bichinho era mais confortável que o barulho das escolhas. Acumular sem destino é mais seguro do que decidir o que fazer com o que se tem. O porco de louça, no fundo, não guardava moedas. Guardava a nossa hesitação.

Ele ensinava, sem alarde, que viver é escolher entre o conforto do acúmulo e a coragem da ruptura. Que todo recipiente, uma hora, precisa ser quebrado — seja ele um cofrinho, uma crença, um ciclo ou uma vida inteira de hábitos. E que o barulho das moedas espalhadas pelo chão, por mais violento que pareça, é o som mais honesto que existe: o som de algo que, finalmente, se decide a existir.

Dr. Aderval Aragão – é médico e cirurgião vascular

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