A ACADEMIA, O MÉDICO E O ESCRITOR

Lúcio Antônio Prado

Médico

“Como maçãs de ouro em salvas de prata, assim é a palavra dita a seu tempo”

Provérbios 25,11

A Academia Sergipana de Letras caminha célere para o seu centenário de fundação que acontecerá em 2029. E motivos não faltam para celebrar com enorme júbilo essa caminhada de sucesso.

Nessa hora de festejar gostaria de lembrar de alguns nomes: Antônio Garcia Filho, Luiz Antonio Barreto e José Anderson Nascimento.

Antônio por tudo que representou nos seus 83 anos de vida, médico fundador da primeira escola médica de Sergipe em 1961, primeiro secretário de Estado da Educação, Saúde e Cultura, escritor, poeta, também fundou o Centro de Reabilitação, um dos primeiros do Brasil, no governo do irmão Luiz Garcia. Acompanhei-o de perto na faculdade e no recesso da família e pude observar a importância que teve para a Academia de Letras.

Já Luiz Antônio Barreto foi quem primeiro me “convidou” para chegar à Academia, relutei porque queria antes integrar o Movimento de Apoio Cultural – MAC, fundado por Garcia. Luiz insistia a cada encontro casual nos cafezinhos dos shoppings da cidade.

Gilton Garcia foi outro que sempre insistia na tese, mas minha intenção mesmo era o MAC, notadamente quando Antônio se foi em 1999 e aquela importante confraria recebeu o seu nome, em uma justa homenagem. Assim, como imaginava, entrei no Movimento Cultural na Cadeira 1 cujo patrono é o Dr. Augusto Leite.

Estávamos em 2014 e não demorou muito, outros personagens importantes entraram nessa história: José Anderson Nascimento, Carlos Pinna de Assis e Eduardo Conde Garcia. Guiado pelas mãos deles, fui levado, após concorrida eleição, para a Cadeira 36, na sucessão do professor Acrísio Torres.

A posse aconteceu em agosto de 2016, oportunidade em que recebi o elogio do confrade e colega Francisco Guimarães Rollemberg.

Passados dez anos de um período mágico e enriquecedor, pude testemunhar de perto o desempenho do confrade José Anderson Nascimento, e perceber que o seu amor e dedicação à Casa de Tobias é extraordinário, levando a instituição a momentos de glória e consolidação da sua importância transcendental para a vida cultural e literária de Sergipe.

Hoje, quando celebramos o 97º aniversário de fundação da ASL e na condição de presidente nacional da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, aproveito a oportunidade para ressaltar a participação fundamental dos médicos, de um modo geral, nas casas literárias, em todos os cenários.

Médico escreve, é natural que o médico escreva, faz parte de sua formação e da sua profissão escrever. Histórias clínicas, hipóteses diagnósticas, relatórios, pareceres, laudos, atestados, receituários… o que os pacientes dizem ou respondem, os sons que ele percebe na ausculta clínica, os dados obtidos pela palpação e percussão, tudo é transcrito para o papel ou para a tela de um computador.

A produção científica na medicina, publicada em inúmeras revistas e periódicos, é a maior entre todas as profissões, disso não tenho dúvidas. Mas não é dessa literatura que trato aqui. Refiro-me à literatura não científica, produzida pelos médicos em todos os rincões do mundo e que nos propiciou conhecer nomes como Sir Arthur Conan Doyle, o criador do célebre detetive Sherlock Holmes, formado pela Universidade de Edimburgo; Anton Tchekhov, que cursou medicina na Universidade de Moscou e é considerado um dos maiores contistas de todos os tempos.

A sinergia dele com a medicina e a literatura se estabelece, de forma clara, na dualidade:

“Fico satisfeito quando me dou conta de que tenho duas profissões, não uma. A medicina é a minha esposa legal, a literatura a minha amante. Quando canso de uma, passo a noite com a outra. Pode não ser uma situação habitual, mas evita a monotonia; ademais, nenhuma delas sai perdendo com minha infidelidade. Se não tivesse minha atividade médica, dificilmente poderia consagrar à literatura minha liberdade de espírito e meus pensamentos perdidos”.

Outro nome lembrado é o de A. J. Cronin, autor do clássico “A Cidadela”, de temática tão atual como nunca.

Por outro lado, grandes escritores da humanidade utilizaram temas médicos em suas obras. Assim fez Shakespeare em Macbeth, Romeu e Julieta e Hamlet. Machado de Assis em O Alienista, Flaubert em Madame Bovary e Molièri em A Doença Imaginária.

No Brasil, volto ao século XIX com Manoel Antônio de Almeida, médico escritor que publicou A Moreninha e Memórias de um Sargento de Milícias, um dos mais famosos romances de costumes da história da literatura brasileira. Não é sem motivo que o escritor carioca é patrono da Academia Brasileira de Médicos Escritores – ABRAMES, que tenho a honra de integrar ocupando a Cadeira 3, que tem como patrono o sergipano Abreu Fialho.

Destaco ainda Guimarães Rosa, um dos nossos mais festejados escritores, autor de obras como Sagarana e Grande Sertão: Veredas, que se formou na Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais.

Como esquecer Moacyr Scliar, gaúcho que cursou medicina na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com especialização em Saúde Pública, um dos mais produtivos autores nacionais, de obras portentosas como A majestade do Xingu, O imaginário cotidiano e A Paixão Transformada.

Neste último livro, Moacyr Scliar reúne e comenta trechos de textos que, ao longo da história, registraram opiniões e fatos relativos à doença e à cura. Ao fazê-lo, com a acuidade de sempre e o humor contido que caracteriza sua prosa, resgata momentos privilegiados que assinalaram a trajetória da medicina e da luta do ser humano contra a doença.

Diz ele:

“A história da medicina é uma história de vozes. As vozes misteriosas do corpo: o sopro, o sibilo, o borborigmo, a crepitação, o estridor. As vozes inarticuladas do paciente: o gemido, o grito, o estertor. As vozes articuladas do paciente: a queixa, o relato da doença, as perguntas inquietas. A voz articulada do médico: a anamnese, o diagnóstico, o prognóstico. Vozes que falam da doença, vozes calmas, vozes revoltadas. Vozes que se querem perpetuar: palavras escritas em argila, em pergaminho, em papel. Vozerio, corrente ininterrupta de vozes que flui desde tempos imemoriais.”

Em Sergipe, essa participação de médicos na literatura não científica também é expressiva. Nomes como Rodrigues Dória, Edilberto Campos, Ranulpho Prata, Abreu Fialho, Augusto Leite, Garcia Moreno, Renato Mazze Lucas, Antônio Garcia, José Abud e Aírton Teles, podem ser reverenciados, só para citar os mais antigos.

É o universo ampliado dessa dupla militância. Somente na Academia Sergipana de Letras, que integro com grande orgulho, estão os médicos Francisco Rollemberg, o nosso decano, seguido do escritor e cientista Eduardo Garcia, do escritor e poeta Marcelo Ribeiro, do latinista Marcos Almeida, além dos colegas Paulo Amado, Antonio Carlos Sousa, José Aderval Aragão e José Geraldo Bezerra.

Trata-se de uma expressiva presença, que ilustra e dignifica a Casa de Tobias Barreto.

O famoso pintor espanhol Pablo Picasso dizia que há dois tipos de artista: os que transformam o sol numa simples mancha amarela e aqueles que fazem de uma simples mancha amarela o próprio sol.

Por trazerem a sensibilidade para a literatura, muitas vezes como fruto da prática diária da profissão, seus medos e anseios, o contato com a linha tênue que separa a vida da morte, o sofrimento e a dor, eles podem muito bem se enquadrar nessa segunda condição.

Que mais médicos venham a integrar as academias literárias e culturais!

Aracaju, 1º de junho de 2026

Lúcio Antônio Prado Dias integra as Academias de Medicina e de Letras e preside nacionalmente a Sociedade Brasileira de Médicos Escritores – Regional Sergipe.

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