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O sono nosso de cada dia, Senhor, nos dai hoje…

Há algum tempo li um texto muito bem-humorado sobre dormir ou não dormir. Nele o escritor gaúcho Luiz Fernando Verissimo trata do tema em prós e contras, com uma incrível carga humorística, abordando mitos e algumas verdades.

Do domínio público à opinião letrada, são inúmeras as citações sobre o sono. Para Machado de Assis, por exemplo, “dormir seria um modo interino de morrer”.

Já para o genial Albert Einstein, o conceito de dormir se aproximava bem mais do atual conhecimento científico, ao afirmar que “o segredo da criatividade está em dormir bem e abrir a mente para as possibilidades infinitas. O que é um homem sem sono e sonhos?”

Melhor ainda o conceito da escritora inglesa no livro Harry Potter: “Deixem-no dormir, porque nos sonhos entramos num mundo inteiramente nosso, deixem que flutue na mais alta nuvem ou que mergulhe no mais profundo oceano”.

Dormir é parte inerente e indissociável da fisiologia de todas as formas de vida. O Sahelanthropus tchadensis, o nosso mais antigo ancestral, que viveu há cerca de 7 milhões de anos, já aprendera que a vida seria impossível sem a observância do ciclo claro-escuro definido pela ação da luz solar.

Desde essa longínqua era, desenvolvemos fotossensores que passam pelos nossos olhos, trafegam pelas nossas retinas até chegarem a uma região atrás dos olhos chamada de VLPO (área pré-óptica ventrolateral), onde atua inibindo nosso desejo de dormir.

Manter-se alerta depende de um processo muito complexo e requer a ação de uma ampla via de transmissões estimulatórias. Se a luz solar cumpre seu papel através da visão, há também um sistema complicado localizado pouco acima da nuca, o “Sistema Reticular Ativador”, que emite disparos elétricos através de várias substâncias que inundam de estímulos estruturas cerebrais como o tálamo e o hipotálamo, e assim nos mantemos acordados e ativos.

Essa intrincada rede “elétrica” que nos mantém ligados propicia os meios para recebermos, processarmos, julgarmos e efetuarmos toda sorte de respostas que compõem o estado de vigília.

Mas, ao longo das 24 h do nosso dia na Terra, que denominamos de “ritmo circadiano”, vem a fase escura, quando metade do planeta fica de costas para o Sol e, aí, tudo muda.

Na ausência do estímulo luminoso, uma área especial de neurônios localizados na região anterior do cérebro produz uma espécie de “Lexotan” que neutraliza os centros promotores da vigília, tanto no hipotálamo quanto no tálamo e sobre o Sistema Reticular Ativador, e assim, pelos poderes do Sistema do Ácido Gama-Aminobutírico – GABA – e seus associados, mergulhamos nesse estado reversível de perda da capacidade de interação com o meio que nos cerca: assim dormimos.

Ao longo de uma noite, diversos centros de processamento atuam incansavelmente na tarefa de promover as restaurações de todos os sistemas que deverão voltar a ser utilizados quando o sol nascer e o novo dia chegar.

É assim que, enquanto dormimos, percorremos estágios de profundidades crescentes compostos de ciclos de sono superficial ao sono profundo, e assim realimentamos nossas capacidades de produzirmos, de recompormos nossas defesas, nosso sistema imunológico, reparamos estragos, consolidamos memórias, estabilizamos os centros de humor, promovemos a manutenção dos sistemas cardiovascular, musculoesquelético, endócrino, metabólico, hepático, renal etc.

Os estágios do sono (NREM ou Sono Sem Movimento Ocular, que se alterna com o sono REM ou de Movimentos Oculares Rápidos) ao longo do dormir assemelham-se à execução de uma peça musical, onde cada instrumento que compõe a orquestra neuro-sinfônica tem seus momentos de maior ou menor evidência para produzir o resultado final, o sono restaurador.

Na manhã seguinte volta a luz e todo o processo se repete. Pode-se perceber que a natureza, ao longo de milhares de anos, nos impôs a necessidade inegociável de dormirmos por pelo menos 6 horas em cada ciclo solar de rotação da Terra. Lutar contra esse fato é uma das mais tolas ilusões que o homem moderno se propõe a contrariar com seus inventos, tecnologias e novos modelos de vida da “sociedade 24 horas”.

Despertei para a medicina do organismo humano dormindo há mais de 30 anos e fico perplexo com quanto tempo os homens de ciência, pensadores, filósofos e médicos levaram para perceber que o sono é uma necessidade que ocupa 30 a 40% do nosso tempo de vida.

Em meio a tantos mistérios, sono e sonhos, encontro na obra do pintor espanhol Salvador Dalí a melhor representação artística do sono REM, no quadro “O Sono”, de 1937, quando a medicina e a fisiologia humana começavam a dar seus primeiros passos na compreensão dessa fisiologia inevitável e intransferível.

Só em 1939 o fisiologista Nathaniel Kleitman publicou a obra de arte médica “Sleep and Wakefulness” (Sono e Vigília), pondo a importância de dormir no seu devido lugar no mundo dos homens acordados.

Sono e sonhos, sonhos e sono, um mistério milenar: José do Egito conquistou a simpatia e o respeito do faraó interpretando os sonhos do seu copeiro-mor.

A descoberta da estrutura do benzeno, em 1865, pelo químico alemão August Kekulé, deu-se em um sonho no qual o cientista vislumbrou uma cobra mordendo a própria cauda, que seria o anel aromático que forma essa importante substância química.

A música “Yesterday”, de Paul McCartney, uma das mais encantadoras já compostas até os dias de hoje, foi concebida em um sonho, e ao despertar Paul correu para o piano e produziu essa obra-prima.

Quando conheci os professores Thomas Scammell e Clifford Saper, nas minhas andanças por Boston, fui apresentado à sua bela teoria do “Flip-Flop Switch” (gangorra) e então entendi que sono e vigília se alternam permanentemente ao longo da vida, em uma disputa tão insistente quanto a própria existência.

Portanto, dormir não é perda de tempo, dormir é a vida em ação, em manutenção, em busca de viver mais e mais.

Dr. José Marcondes – especialista em Pneumologia e Medicina do Sono – Unifesp-Instituto do Sono; Pulmonary, Critical Care and Sleep Medicine – Massachusetts General Hospital – Harvard Medical School. Pneumologista e especialista em Sono pela Associação Médica Brasileira – CFM e CRM-SE. Diretor clínico da Sonomed – Instituto do Sono – Aracaju, SE. Membro da Sobrames Sergipe e da Academia Itabaianense de Letras.

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