
Sergipe vive um novo momento na política de transplantes. Depois de 13 anos, o estado voltou à rota dos transplantes de órgãos e passou a contar novamente com procedimentos renais e hepáticos com doador falecido. Segundo o coordenador da Central Estadual de Transplantes, Benito Fernandez, o avanço já é percebido tanto na identificação de potenciais doadores quanto no número de doações efetivadas.
“Atualmente, Sergipe é mais um centro transplantador da União. Hoje Sergipe não precisa mais mandar seu paciente embora. Hoje Sergipe transplanta”, destaca Benito. De acordo com ele, o estado está acima da média nacional na identificação de potenciais doadores.
Os números ajudam a dimensionar esse crescimento. Sergipe saiu de 40 doadores efetivos em 2023 para 156 nos últimos anos. Para o coordenador, o resultado é consequência da sensibilidade das famílias, do trabalho dos profissionais de saúde, da atuação da imprensa e dos investimentos e direcionamento do Governo do Estado para a retomada dos transplantes.
Ao longo da história, Sergipe já realizou 3.281 transplantes. Desse total, 3.121 foram de córnea, o equivalente a 95,1% dos procedimentos. Os transplantes renais aparecem em segundo lugar, com 154 procedimentos, correspondendo a 4,7% do total.
Informação é fundamental para aumentar as doações
Um dos principais desafios apontados pelo coordenador da Central Estadual de Transplantes ainda é a falta de informação. Segundo ele, muitos mitos e dúvidas acabam influenciando a decisão das famílias no momento da autorização.

Entre as crenças mais comuns estão a ideia de que o médico deixaria de tentar salvar um paciente caso ele fosse doador, o medo de que o corpo fique deformado e não possa ser velado, suspeitas sobre tráfico de órgãos e a falsa percepção de que somente pessoas que declararam formalmente em documentos podem ser doadoras.
“A falta de conversa em vida alimenta esses mitos”, afirma Benito, ressaltando o papel da imprensa na disseminação de informações corretas sobre o processo de doação. Outro ponto considerado fundamental é que a pessoa manifeste em vida à família o desejo de ser doadora. Pela legislação brasileira, a autorização para a doação após a morte é dada pelo cônjuge ou por parentes até segundo grau. Ou seja, mesmo que a pessoa tenha manifestado formalmente a intenção de doar, a decisão passa pela família.
“Por isso, conversar sobre o assunto antecipadamente pode evitar dúvidas e conflitos em um momento marcado pela dor. Conversar em vida evita dúvida na hora mais difícil, a hora da partida”, afirma.
Morte encefálica não é coma
Outro esclarecimento considerado essencial pela Central de Transplantes diz respeito à diferença entre coma e morte encefálica. No coma, explica Benito, ainda existe atividade cerebral e possibilidade de recuperação. Já na morte encefálica ocorre a perda total e irreversível de todas as funções do cérebro, incluindo o tronco encefálico.
O diagnóstico é realizado por meio de um protocolo específico, que envolve exames clínicos e complementares. Somente após a confirmação da morte encefálica é que a família pode ser abordada sobre a possibilidade de doação.
“É morte, com respaldo legal e testes extremamente seguros”, explica.

Como funciona a doação
O processo começa com a identificação de um paciente neurocrítico que possa ser um potencial doador. A partir daí, é aberto o protocolo de morte encefálica, com a realização dos exames necessários. Após a confirmação, a Organização de Procura de Órgãos (OPO) realiza a entrevista com os familiares. Segundo Benito, esse momento é conduzido com acolhimento, escuta e sem pressão.
“Em caso de autorização, são realizados exames de compatibilidade e os órgãos são disponibilizados ao Sistema Nacional de Transplantes. A distribuição não é definida pela equipe local, mas pelo próprio sistema nacional, seguindo critérios técnicos, como compatibilidade sanguínea e imunológica, tempo de espera, gravidade do quadro clínico e logística necessária para o transporte e preservação do órgão”, disse.
Estrutura para captação
Atualmente, Sergipe conta com a Central Estadual de Transplantes e com a Organização de Procura de Órgãos instalada no Hospital de Urgências de Sergipe (Huse). A estrutura possui uma equipe de 20 profissionais que realiza busca ativa por potenciais doadores nos hospitais.
O estado realiza atualmente transplantes de córnea, rim e fígado e está em processo de habilitação para realizar transplantes de coração.
Podem ser doados órgãos como rim, fígado, coração, pâncreas e pulmão, além de tecidos como córnea, pele, ossos, válvulas cardíacas e cartilagem. Em casos de morte encefálica, é possível realizar a doação de órgãos e tecidos. Já em situações de parada cardiorrespiratória, a doação é restrita às córneas, respeitando os critérios e o tempo estabelecido para a captação.
Entre os critérios para a doação estão a confirmação da morte encefálica ou da parada cardiorrespiratória, causa da morte conhecida e ausência de condições que contraindiquem a doação, como infecção generalizada ou câncer com metástase.

