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Aracaju dos meus amores, minha casa!

Aracaju dos meus amores, minha casa!

Alguma coisa acontece no meu coração, Quando eu cruzo a Rua Laranjeiras e o calçadão.

É que quando eu cheguei por aqui, eu nada entendi,

Sanduiche de carne moida, molho de batata com alface de Seu João.

Havia missa de domingo na cathedral, Retreta na Fausto Cardoso, Desfiles de meninos ricos em seus fuscas com talas-largas,

Queimando pneus para impressionar as meninas de narizes arrebitados do Colégio de Aplicação.

Eu nunca tinha ouvido falar de Irmão, Tonho Baixinho e Marco Doido, Alcides Melo, Chico Queiroga e Ismar Barreto.

A tua mais completa tradução. Alguma coisa acontece no meu coração Que só quando cruza a rua Laranjeiras e o Calçadão.

Quando eu encarei a Estação Luiz Garcia e não vi o meu rosto,

O Atheneu me esperava, Valdice e Manezinho não acrecentariam nada ao meu comportamento pacato, interiorano e ordeiro.

Olhei para aquele mundo de jovens fardados com o luxuoso uniforme do Estadual e conclui que eu era um tolo Narciso e achava feio o que não era espelho, do meu Murilo Braga, de onde eu vim. E, a minha mente jovem ficou velha, apavorada frente ao mundo que teria que sobreviver.

Nada daquilo existiu antes, de uma hora para outra, me senti como um mutante. Aracaju, creias, fostes um difícil começo. Aqui eu tinha uma calorosa casa, mas não tinha endereço,

Eu vinha de Itabaiana, um sonho feliz de cidade.

Da rua Maruim, aprendi depressa a chamar-te de realidade.

Você não era exatamente o avesso do avesso do avesso do avesso, Eu é que era um adolescente tabareuzinho mimado, esperando que você me paparicasse.

Era apenas Aracaju, pequena, provinciana, cidade de compadres e comadres vaidosos, quanto simplórios.

Nunca vi gente oprimida nas filas, nas vilas ou favelas. Aqui a força da grana dos Leites, Prados, Rollembergs, Aguiares, Ribeiros, Barretos, Chaves, Chagas, Francos, Menezes, Vieiras erguiam e destroiam coisas belas. No Bar 315, não havia fumaça, os vapores que saiam da cozinha apertada, tinham um apetitoso aroma de “espaguete à bolonhesa”, e de lá, pareciam acender aquele mundaréu de estrelas desocupadas que, preguiçosamente, flutuavam no ar das minhas noites na capital dos sergipanos. Em tuas noites, eu vi surgir poetas como os Marios Jorges, Amarais Cavalcantis, Santos Souza, Ilmas Fontes, Alencares e Ayres Brittos.

Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva circulavam nos festivais de São Cristovão, teu inconformado fantasma vivo, por onde encenavam peças de “vomitoscoloridos” de Pata Preta, Alcidez, Joubert Morais e Roninho, da rua Help. Pan-Américas de Áfricas utópicas, túmulo do samba,

longe de ser mais um quilombo de Zumbi, fostes reduto dos brancos cabaús, da aristocracia morena, sem bochechas rosadas. Tribo de alguns “Novos Sergipanos da Praça da Bandeira”, com suas maconhas vencidas, sob os sons do Clube da Esquina das Minas Gerais, de Milton Nascimento, Lô Borges, Beto Guedes e Fernando Brandt e os imãos Venturini.

Nessa terra, que um dia teve a avenida Barão de Maruim, praças Tobias Barreto e Camerino, rua da Frente, o aconchego do Aribé, a opulência da burgesia decadente do Santo Antônio e a arquitetura modernista da rua da Frente.

Aí eu cheguei, quebrando a harmonia conservadora pedindo carona para a Atalaia dos caranguejos graúdos.

Aracaju, você é uma dessas minhas paixões secretas, daquelas que até então, eu jamais declarara.

Por tuas ruas deixei de ser menino mimado, aprendi a ser cidadão nu e cru, mas sem perder a ternura jamais. Na tua generosidade, o menino tímido do interior, ganhou “tensiômetro e estetóscopio”, virou Doutor de Medicina, casou e plantou filhos lindos nas tuas terras arenosas e calorentas. No teu aniversário de 171 anos, Aracaju, me permitas fazer uma declaração de amor: Para sempre eu vou ser um pouco de você, mas você vai sempre ser quase tudo para mim!

Obrigado por tudo que me deu e por tudo que hoje sou!

Dr José Marcondes – é médico e membro da Sobrames Sergipe

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